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"Marketing político é
muito mais que marketing eleitoral"
O QUE É E COMO FAZER
Infelizmente,
o marketing político, no Brasil, tem sido trabalhado exclusivamente
sob a ótica do marketing eleitoral. Ou seja, os políticos
utilizam as ferramentas do marketing apenas ao correr das campanhas
eleitorais. Trata-se de um grave erro de visão. O correto
emprego do marketing político significa seu uso tanto para
viabilizar candidaturas proporcionais ou majoritárias quanto
para estabelecer, preservar e aperfeiçoar o conceito das
administrações públicas.
O governador e o prefeito precisam do marketing político
em suas gestões para ampliar as pontes de comunicação
com suas comunidades, prestar contas periódicas, criar climas
de aproximação e simpatia, abrir fluxos de acesso,
identificar pontos de estrangulamento nas estruturas burocráticas,
identificar anseios, expectativas e demandas sociais e, sobretudo,
estabelecer um clima de confiança e credibilidade, fatores
tão requisitados, porém cada vez mais raros. O parlamentar
carece de um sistema de marketing político para alimentar
suas bases eleitorais, reforçar sua identidade e ampliar
os espaços políticos.
O que
é o marketing do executivo e do parlamentar e como ele pode
ser planejado? O marketing do executivo e do parlamentar compreende
um conjunto de meios, formas, recursos e ações de
pesquisa, comunicação, articulação e
mobilização, quatro eixos que sustentam as atividades
de marketing. Normalmente, as assessorias de marketing e comunicação
trabalham apenas com mídia, ou seja, sua preocupação
básica é a de levar o conceito das administrações
e de parlamentares para jornais, revistas, rádio e TV. A
mídia, no entanto, compreende apenas uma pequena parte de
um planejamento de marketing. Por essa razão, defendemos
uma nova conceituação para as estruturas de marketing
e comunicação. O marketing institucional poderá
oferecer condições para que governadores, prefeitos
e parlamentares administrem suas relações com o meio
ambiente externo e meio ambiente interno. O planejamento do marketing
abriga uma seqüência de conceitos e posições,
que veremos a seguir.
O ABC DO MARKETING PERMANENTE
Tentaremos,
aqui, apresentar alguns pontos que ajudam a compor um programa de
marketing político permanente. Em primeiro lugar, cabe dizer
que é preciso definir o discurso. Este discurso comporta
dois eixos: a. o eixo semântico, composto pela essência
informativa e persuasiva que se extrai dos programas do Governo
ou do parlamentar e b. o eixo estético, desenvolvido por
meio de signos e símbolos visuais (cores, desenhos, tipos
gráficos etc.).
1. Compor o conceito/identidade
O primeiro
passo de um programa de marketing é a definição
do conceito que se pretende fixar e passar para a opinião
pública. Trata-se, aqui, de estabelecer o QUÊ. Esse
QUÊ abriga a identidade, a coluna vertical, que se extrai
a partir de uma lupa sobre os programas prioritários. Como
se sabe, tende-se, na administração pública,
a trabalhar com muitos aspectos, com muitas idéias. O resultado
é uma colcha de retalhos. A identidade acaba sendo canibalizada
pela multiplicidade de ângulos. E as administrações
não transmitem a essencialidade de seus programas. O varejo
e as atividades rotineiras estiolam os aspectos prioritários.
E os governos e/ou parlamentares ficam sem diferencial de marca,
de postura, de idéias, de valores. Por isso mesmo, do conjunto
programático, deve-se selecionar as ênfases, que devem
ser conformadas a três ou quatro grandes áreas.
A seleção
das áreas prioritárias gerará conceitos-chave,
palavras de comando, idéias-síntese que servirão
para balizar o programa de comunicação da administração.
Por isso, o sistema de comunicação deve se fazer presente
nas decisões sobre o conceito da administração.
2. Compor o conceito visual
A formação
do conceito se complementa, portanto, com o programa de identidade
visual das administrações. Aí definem-se as
cores, o logotipo/logomarca, o slogan (conceito/frase-síntese),
os tipos e matrizes de letras com suas aplicações
nos materiais, previstas no plano de harmonização
visual da administração. Na verdade, o primeiro plano
de visibilidade externa é conferido pela roupagem da administração.
É essa vestimenta que passará, para a sociedade, num
primeiro momento, inputs contendo os conceitos de modernidade, agilidade,
eficiência, tecnologia, ética, seriedade, harmonia,
beleza plástica.
3. Alterar/corrigir o conceito
É
muito comum a pergunta: pode-se corrigir, alterar ou mesmo formar
o conceito, no meio da gestão, por exemplo? É possível,
sim, mas os custos serão mais onerosos. Quem começa
antes, terá mais tempo para desenvolver e aperfeiçoar
as idéias-centrais. Se depois de algum tempo, a administração
ainda não conseguiu estabelecer seu conceito, sugere-se imediata
correção de rota. É claro que a bateria de
comunicação terá de repercutir de maneira mais
forte, em função do tempo menor que se disporá
para internalizar, junto à sociedade, os programas e as idéias.
O custo, é claro, será maior. O que não aconselhamos,
sob nenhuma hipótese, é formar um conceito em cima
de coisas inexistentes. O marketing se apóia em idéias,
em ações, em fatos.
4. Pesquisar as expectativas da população
Marketing
sem pesquisa é chute. Nenhum administrador, por mais competente
e intuitivo que seja, pode criar um programa de governo, sem auscultar
a comunidade. A conferência das aspirações,
anseios, vontades e expectativas da população dará
ao programa de marketing o devido balizamento. As administrações
podem, por exemplo, descobrir que seu sentido de prioridades não
está sendo aceito ou entendido pela sociedade e, ainda, que
o governo pode estar indo na contra-mão dos desejos do povo.
De seis em seis meses, é aconselhável uma pesquisa
de opinião, seja qualitativa ou quantitativa, para aferição
do clima ambiental.
A pesquisa
qualitativa, para conferência de padrões administrativos,
oferece a vantagem de maior aprofundamento de questões relativas
aos rumos dos governos. Trata-se de um tipo de pesquisa praticamente
inexplorado pelos governos, apesar de ser bastante usado nas campanhas
eleitorais.
5. Organizar um sistema orgânico
de distribuição
Trata-se,
agora, de formar a rede de distribuição, ou seja,
a malha dos canais de comunicação. Inicialmente, chamo
a atenção para a distorção - muito comum
nas assessorias de comunicação - de se considerar
como rede de comunicação apenas o grupo dos grandes
jornais, revistas, emissoras de TV e rádio. Faço a
seguinte divisão:
- Marketing massivo: abrange os grandes canais de comunicação
(nacionais e estaduais).
- Marketing seletivo: abrange os canais de comunicação
existentes na rede organizacional - jornais, boletins, revistas,
folders, folhetos etc. patrocinados pelas diversas categorias
de entidades. Esses canais são, geralmente, desprezados.
Mas estão sempre à disposição das
administrações, se dirigem a grupos com forte poder
de opinião e oferecem baixo custo de veiculação.
- Veículos próprios: A mídia própria
das administrações abriga uma rica coleção
de canais, além dos boletins, jornais, revistas, folhetos,
mapas, álbuns etc. Abriga, por exemplo, o sistema de murais
nos prédios públicos, as placas de obras e de sinalização
pública, os memorandos, as correspondências, enfim,
os espaços oferecidos pela papelada burocrática.
Esse acervo pode se prestar à veiculação
de informações normativas e de orientação
técnica, à campanhas educativas e de cunho integrativo.
No caso de parlamentares, a mídia própria pode agregar
boletins ou jornais periódicos; cartas; envios de discursos;
telegramas etc.
A correta
utilização da malha própria de canais multiplica
a visibilidade das administrações dos parlamentares,
formando uma consciência comprometida com os valores que ela
pretende passar. Por isso mesmo, vale a pena investir em um programa
de modernização da rede interna de comunicação.
Os jornalistas, regra geral, por sua formação profissional
e acadêmica distorcida tendem a abandonar formas de comunicação
que não sejam jornalísticas.
6. Formar um sistema de articulação
institucional
Outra
perna importante do corpo de marketing da administração
pública é a articulação. A comunicação
abre espaços para a visibilidade e internalização
do conceito da administração, mas é a articulação
que opera com as forças de apoio social. A importância
da articulação torna-se maior, nessa quadra da vida
brasileira, em que se fortalece a cadeia institucional. Entidades
de todos os tipos - sindicatos, associações, federações,
grupos organizados - avançam politicamente, formando massas
extraordinárias de pressão. Conseguem, até,
eleger representantes junto ao Parlamento. Portanto, o marketing
da administração pública há que considerar
a necessidade de um planejamento especificamente voltado para o
grupo de entidades que geram influência e formam opinião
no País, no Estado, nas regiões, nas municipalidades.
A operação da articulação se dá
por meio de uma agenda de compromissos e contatos dos administradores
públicos com os líderes do universo organizacional.
7. Adensar a articulação
política
A outra
ponta da articulação está na área política.
Mais uma vez, o marketing deverá estar presente também
nessa ponta, estabelecendo um amplo programa de contatos, com despachos
semanais ou quinzenais dos administradores com a classe política.
Deve-se ter em mente que a articulação política
é absolutamente necessária para se criar a fluidez
administrativa, para se obter a aprovação dos projetos
dos Executivos nas Câmaras Legislativas e o apoio junto aos
políticos. (A aprovação das cinco emendas da
reforma econômica, na Câmara Federal, se deu graças
à articulação política).
No caso de parlamentares, ampliar circuito de apoios e círculos
de amigos.
8. Promover contato com as multidões
Para
o administrador público, principalmente da área executiva,
o contato com as massas constitui o alimento energizador do seu
organismo político. Nesse caso, ajusta-se outra pena do marketing,
que é o contato físico com as massas, dentro de uma
estratégia de visibilidade direta. O contato com as massas
faz parte da psicologia do marketing político que se relaciona
ao conceito do EU consciente, onde se insere o homem que sente e
que vê, o homem que quer amparar tudo o que sentiu e pode
rever. Para que o feixe de consciência do homem se expresse,
é preciso que haja uma reação emotiva de interesses.
E essa reação é despertada pela intensidade
da atenção, provocada, por exemplo, pela presença
física do homem público junto às massas. É
nesses contatos, que se abrem os climas de simpatia e empatia, confiança
e credibilidade, engajamento e solidariedade, valores que integram
a maquinaria psíquica das multidões.
9. Harmonizar a linguagem administrativa
Esse
é um dos maiores desafios das administrações
públicas. Há muito ciúme e vaidades nas equipes.
Uns querem ser melhores que outros, enquanto alguns exibem opiniões
divergentes dos restantes. O conflito de idéias se forma
e, por mais que se procure administrar os feudos e casulos que se
formam na malha administrativa, sobra muito espaço para fumaças,
fofocas e mal entendidos. Os administradores precisam encontrar
um ponto de referência comum, harmonizando as linguagens,
ajustando os pontos de vista. A imagem do governo acabará
fragmentada, caso a administração se transforme em
uma colcha de retalhos. O marketing deve buscar os pontos de confluência
no discurso administrativo e atenuar os pontos divergentes.
10. Prestar contas à população
Uma
das principais críticas às administrações
públicas, no país, é sobre a falta de clareza.
Há muita suspeição e chovem denúncias
de favoritismo dos administradores. Esse aspecto pode e deve ser
corrigido pelos homens públicos, por meio de um programa
de prestação de contas periódicas à
população. Não se trata apenas de usar imensas
verbas publicitárias para veicular os resultados da administração.
Trata-se, também, de adotar critérios e formas de
controle da administração, por meio da participação
da comunidade.
11. Aprimorar o marketing pessoal
do administrador
É
difícil e muitas vezes impossível mudar o comportamento,
a postura, a identidade de uma pessoa. Mas é viável
o trabalho de ajustamento de sua identidade, fazendo-se a correção
de posturas, do discurso, buscando-se novas ênfases, novas
propostas. Os governantes, não apenas seus assessores, deveriam
se submeter a programas de reciclagem, para se alimentar de informações,
idéias, aprofundar conhecimentos sobre economia, política,
administração. Deveriam conhecer outras experiências,
buscar, permanentemente, criatividade e inovação.
12. Organizar estrutura adequada de
comunicação e marketing
É
fundamental que o programa de marketing e comunicação
seja desenvolvido dentro de uma estrutura adequada, com recursos
e meios necessários para sua operação. Não
adianta querer ter sucesso no marketing se não há
recursos e se as condições são precárias.
Marketing não é jogo de palavras. Não é
utopia. Não é abstração. É pesquisa,
é comunicação, é articulação,
é promoção, é mobilização
social. Isso tem um custo. E custo nem sempre baixo.
AMEAÇAS E OPORTUNIDADES
Para
maximizar os programas de marketing, é preciso mapear as
ameaças e as oportunidades. Relaciono, aqui, algumas:
1. O feijão com arroz das administrações
Há
quem não se considere alimentado se não comer, diariamente,
feijão com arroz. No marketing da administração
pública, não é bem assim. É preciso
que o cardápio seja mais variado. Está provado que
os administradores brasileiros com boa imagem são os que
têm tido coragem de inovar, de criar, de avançar. As
safras de governadores e prefeitos mostram que alguns são
pró-ativos e criativos, outros cozinham apenas o feijão
com arroz, rotinizam-se, caem no esquecimento. A inovação
dá o diferencial de imagem.
2. O ciclo de vida da administração
A maximização
de um programa de marketing depende, também, da compreensão
do ciclo de vida de uma gestão. Como no ciclo de vida de
um produto, podemos distinguir seis fases:
a. O lançamento do administrador/parlamentar
Os primeiros seis meses são dedicados ao diagnóstico
e ao ajustamento do executivo como parlamentar. O marketing deverá
procurar trabalhar com o campo das dificuldades;
b. O ajuste da identidade
Na segunda metade do primeiro ano, começam a aparecer os
primeiros sinais de visibilidade e os primeiros programas de ação,
é a fase propícia para ajustar a identidade;
c. Fase de crescimento
No segundo ano, as administrações começam
a operar, de modo mais firme, seus programas, com destaque para
as prioridades. O conceito da administração, por
meio do marketing, emerge forte.
d. A fase da consolidação
e maturidade
O terceiro ano é o ciclo das realizações,
quando se procura consolidar os programas. A administração
está madura, a equipe ganha experiência e o marketing
terá de passar esse ideário
e. Clímax/auge
O último ano é, geralmente, o ciclo mais político,
com a administração voltada para programas de inaugurações
e demandas políticas. Se até o presente, a administração
não ganhou um conceito, perdeu a chance. Passará
em branco.
f. Declínio
O governante entra no despenhadeiro e joga sua imagem para as
profundezas. Quando isso ocorre ao final da gestão, é
muito pouco provável que faça o sucessor. A exceção
é quando o sucessor consegue descolar sua imagem da imagem
do patrocinador.
3. Sobrecargas informativas
A ânsia
de passar muitas informações para a mídia,
por parte dos assessores de comunicação, acaba provocando
o fenômeno da "canibalização informativa".
Uma informação come a outra. Isso é bastante
arriscado, porque o adensamento dos fluxos de comunicação
pulveriza o conceito da administração. Os pontos-chave,
às vezes, acabam ganhando menos destaque que aspectos sem
importância. O planejamento dos fluxos comunicativos, com
suas cargas informativas, é fundamental para o sucesso de
um programa de marketing.
4. Importância da assessoria
Não
adianta organizar um programa de marketing se a equipe administrativa
não tiver noção de sua importância. É
preciso que ministros, secretários, coordenadores, chefes
tenham idéias exata do que é marketing e comunicação.
Significa, por outro lado, que devem considerar os assessores como
peças fundamentais na engrenagem administrativa.
5. Estrutura adequada
Cada
administração deve organizar o sistema de comunicação
de modo adequado. Em princípio, as áreas básicas
do marketing e comunicação devem se fazer presentes
na estrutura: pesquisa, imprensa, relações públicas,
propaganda, articulação, promoção, mobilização,
apoio administrativo.
6. Formação de quadros
Os quadros
que trabalham com marketing e comunicação precisam
passar, permanentemente, por cursos de reciclagem. A administração
pública provoca, mais que a iniciativa privada, a doença
do amorfismo, da dormência, da conformidade. Os quadros devem
se submeter a choques de criatividade. É preciso trabalhar
com arrojo.
7. Sinalização de coisas
positivas
Há
governos que perdem muito tempo com diagnósticos e passam
para a sociedade a idéia de que estão sempre criticando
os anteriores. As populações se cansam de diagnósticos,
de molduras antigas, de perfis de governos passados. Querem ver
ações, coisas concretas, mão na massa. O conselho
é evitar o desgaste dos discursos negativos e ganhar espaços
com os discursos positivos.
8. Aprimoramento constante do discurso
Um administrador
público deve cuidar do aperfeiçoamento de seu discurso.
Para tanto, precisa saber, por exemplo, que a opinião pública
reage ao que se chama de alavancas psíquicas, dentre as quais
lembramos as seguintes:
a. As alavancas de adesão
Discurso voltado para fazer com que a população
aceite os programas, associando-se a valores considerados bons;
b. Alavancas de rejeição
Discursos voltados para o combate à coisas ruins (administrações
passadas, por exemplo);
c. Alavancas de autoridade
Discurso em que se usa a voz da experiência, do conhecimento,
da autoridade, para procurar convencer;
d. Alavancas de conformização
Discurso orientado para ganhar as massas, e que usa, basicamente,
os símbolos da unidade, do ideal coletivo, do apelo à
solidariedade.
Como se vê, o administrador público pode tocar uma
melodia, por meio de diversos instrumentos. É perigoso
ficar quatro anos, tocando na mesma tecla.
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