|
Como o PT pôde lançar Marta
Suplicy como candidata primeiro ao governo do Estado e depois à
prefeitura de São Paulo? Como é que vê esse
fenômeno, a loira de olhos azuis, rica, bem-nascida, etc.?
Gaudêncio Torquato
Marta Suplicy era a única alternativa do PT para ganhar uma
eleição em São Paulo, em função
exatamente dos fatores que coloquei: os eleitores estão votando
nas pessoas e não nos partidos. Portanto, em primeiro lugar,
há uma separação entre PT e Marta, que é
suprapartidária. Em segundo lugar, ela ganhou visibilidade
na campanha para governadora em 1998, e apareceu até como
vítima, na linha do “tiraram o governo dela”.
Segundo, passa a idéia de uma pessoa que não está
usando o discurso radical do PT, além de charme pessoal na
televisão e discurso aprumadinho - na minha visão,
muito artificial. Acho que, no segundo turno, ela poderia ter sido
derrotada apenas por dois dos quatro candidatos principais: Geraldo
Alckmin e Luiza Erundina, num embate direto. Acontece que campanha
para segundo turno é outra campanha. Zera tudo e ninguém
pode projetar o primeiro turno sobre o segundo. O maior erro que
se poderia ter cometido teria sido confiar nas pesquisas. Elas diziam
que, no segundo turno, a Marta ganharia com folga etc. O segundo
turno envolve outras circunstâncias, novas motivações
e valores. É um candidato contra o outro, olho no olho, proposta
contra proposta. O eleitor está mais aceso. Nos programas
eleitorais do primeiro turno, era mais complexo perceber a diferença
entre um e outro dos dez candidatos. Há um processo de canibalização
recíproca - “um come o outro” e fica tudo igual.
No segundo turno, eu dizia à época, Alckmin poderia
agregar votos do centro, da esquerda e da própria direita.
Marta também agregaria certo número de votos, mas
eu diria que ela tenderia mais a perder do que a ganhar. Agora,
era claro que, tanto Paulo Maluf como Romeu Tuma seriam derrotados
no segundo turno.
Qual será o comportamento e o desempenho das ONGs
nos cenários eleitorais? Elas irão substituir os partidos
políticos num futuro próximo?
Gaudêncio Torquato
Não acho que irão substituir os partidos políticos,
até porque os políticos não vão deixar
que isso aconteça. O que acho é que as ONGs vão
fazer muita pressão sobre o sistema político, determinando
discursos, linguagens e estratégias. E os políticos
vão precisar das ONGs para se eleger, daqui por diante. O
espaço político não será substituído.
Mas, sem dúvida, a política não poderá
mais desconsiderar a organização da sociedade. Cada
vez mais, o sistema político se assentará sobre as
entidades intermediárias da sociedade. Em função
desse crescimento e fortalecimento das ONGs, vai ocorrer uma reforma
política capaz de diminuir o número de entidades partidárias,
das cerca de 38 reconhecidas, hoje, para algo em torno do que o
deputado Michel Temer defende, cerca de cinco grandes entidades,
porque não há mais do que quatro ou cinco grandes
tendências em torno do pensamento nacional. A sociedade organizada
vai pressionar nesse sentido e deverá ser atendida, sob pena
de a política ficar totalmente desacreditada.
Pergunto, de forma um pouco irônica, o que acha da
obrigatoriedade do voto? Eu até gostava das antigas cédulas,
porque o eleitor podia se manifestar de forma desdenhosa, até
às vezes com palavras não gabaritadas. Hoje inventaram
essa maquininha que considera apenas o valor numérico. Não
seria o caso de voltar às cédulas, para podermos nos
expressar melhor?
Gaudêncio Torquato
Sou favorável à liberdade de votar, não ao
voto obrigatório. Mas faço uma ressalva. O voto livre
é, na verdade, um dever dos cidadãos nas sociedades
democráticas socialmente desenvolvidas. Temos uma sociedade
politicamente ainda muito subdesenvolvida. O que pode ocorrer? Com
a desobrigação de votar, vai haver uma pressão
muito maior junto ao eleitorado, nas regiões periféricas,
e a força econômica vai trabalhar de maneira muito
forte para levar contingentes para votar. Tenho medo de ver aumentado
o fosso entre a sociedade e o sistema político. Portanto,
sou favorável à desobrigação de votar,
ao voto livre; porém, alerto para esta condição
social brasileira. Temo que as elites, os mais poderosos, utilizem
esse dispositivo para ampliar sua força no sistema político.
Os políticos de hoje contam com computação
gráfica, horário eleitoral gratuito, maquiagem mas,
apesar de todos esses recursos, têm-se hoje protótipos
que nos comícios precisam de cantores famosos etc. Antigamente,
independentemente de terem sido bons ou maus políticos, homens
como Adhemar de Barros, Carlos Lacerda, Juscelino Kubistcheck e
Jânio Quadros levavam multidões a seus comícios.
O eleitorado brasileiro mudou. Por que os políticos, com
todos esses recursos, continuam na mesmice? Que está acontecendo?
Há falta de liderança no Brasil? Na série de
possíveis candidatos à Presidência da República,
nenhum tem liderança forte, exceção talvez
do Lula.
Gaudêncio Torquato
Em primeiro lugar, vamos falar um pouco de marketing. Nos últimos
dez ou quinze anos, a política brasileira ficou muito sujeita
ao marketing. Quem exacerbou essa posição foi Fernando
Collor, que usava o marketing todo dia, com aquelas brincadeiras
de correr, entrar em avião supersônico etc., para ganhar
visibilidade. A partir daí, criou-se uma corrente. Apareceu
essa firulação cosmética na televisão,
esse exacerbado invencionismo, numa base de ficção.
Percebendo isso, os políticos investiram muito em marketing,
mas tem acontecido o efeito bumerangue. Pelo marketing, os políticos
prometeram muita coisa, que não cumpriram, a partir do próprio
Pitta em São Paulo. E aí a sociedade ganhou uma vacinação
ética. Os eleitores passaram a desconfiar dos exageros televisivos.
Hoje, há uma crítica muito grande a esse tipo de marketing.
Agora, por quê não aparecem mais grandes líderes?
Lembro, por exemplo, da campanha de Jânio Quadros, que ganhou
de Fernando Henrique Cardoso, na disputa pela prefeitura de São
Paulo. Jânio ficava no estúdio, ao lado de dona Eloá,
doente. Ele tentava induzir o eleitorado com expressões do
tipo: “Eloá está muito doente”. Já
Fernando Henrique, com um blazer inglês, fazia campanha na
periferia de São Paulo, no meio de uma linha de trem. Sem
nenhum recurso, no estúdio, Jânio disparava um discurso
crível, enquanto Fernando Henrique apresentava um discurso
artificial. Na verdade, Fernando Henrique é o político
mais preparado de toda a geração recente. Preparadíssimo,
mas, evidentemente, distanciado do discurso social. Muito bem, Jânio
ganhou a eleição, apesar de Fernando Henrique ter
sentado na cadeira. Não faz muito tempo. Por quê hoje
não acontece isso? Porque os valores sociais estão
muito alterados.
Nos últimos dez anos, houve grandes mudanças. Com
o fenômeno da globalização, da interpenetração
das economias e das idéias, ocorreu uma padronização
de valores e costumes. Estamos assistindo a um processo de despolitização
da juventude, os jovens gostam mesmo é de freqüentar
shopping centers. Há um certo descrédito da política,
portanto, os heróis que aparecem são heróis
de ficção, são fantoches ou pinóquios.
O eleitorado brasileiro está se afastando da política.
Vai votar por obrigação, preferia ir à praia.
Esse descrédito geral faz parte da deterioração
dos valores. Há falta de respeito, falta de dignidade, falta
de ética, falta de solidariedade. Morre uma pessoa na rua
e todos passam com medo de parar e de se comprometer com a situação.
Há um sentimento geral de desconfiança - “isso
não é comigo”, é uma expressão
muito ouvida. A sociedade está mudando muito, ficando mais
calculista, mais fria. Os direitos fundamentais das pessoas estão
sendo esquecidos e quem aparece pregando cidadania no mundo da política
é pouco crível, porque a pessoa pensa: “Puxa,
logo essa pessoa que acabou de se envolver em escândalo!”
Estamos procurando um novo herói. O nosso último grande
herói foi Ayrton Senna. Procuramos um novo herói,
e ele não aparece. Quando aparece uma pessoa com o perfil
desejado pelo povo, a firulação cosmética,
o artificialismo de campanha eleitoral fica em segundo plano. O
conteúdo acabará suplantando a forma. Precisamos de
heróis com conteúdo, com discurso denso, dentro da
lógica das demandas prioritárias da sociedade.
O Brasil é um país novo ainda, está
saindo de uma período de ditaduras contínuas, constantes,
golpes. A urna eletrônica tem os números dos candidatos
e os partidos. Então, o eleitor escolhe um. Há também
o voto em branco. Mas por quê não foi colocado o voto
nulo? Esse voto nulo tem algum valor como protesto ou como modificação
de um sistema?
Gaudêncio Torquato
Quando o eleitor vota nulo ou em branco está, evidentemente,
desprezando, manifestando um protesto contra todos os candidatos.
Tenho a impressão de que, ao preferir o voto em branco, ele
quer simplesmente dizer: não simpatizo com nenhum candidato.
Mas o eleitor poderá anular, se quiser: basta teclar 000
e confirmar.
Essa martirização de Paulo Maluf (com toda
a sua carreira política e experiência) tem justificativa?
Ele merece isso?
Gaudêncio Torquato
Não acho que o Maluf esteja sendo martirizado ou vitimizado.
Para um candidato que entrou em campanha para se defender (como
era o desejo dele) de sérias acusações, como
a ligação com Celso Pitta etc., ele saiu da eleição
como candidato ao segundo turno, portanto, em segundo lugar na preferência
dos paulistanos. Foi a melhor coisa que lhe poderia ter ocorrido.
Ele não está absolutamente sendo vítima nem
mártir. Ao contrário, soube aproveitar muito bem do
momento político para se projetar, e de acusado passou a
acusador - foi muito vivo. Aliás, ele é muito vivo
na articulação, no discurso.
Tenho apenas dezenove anos e sou muito fã do Maluf,
por exemplo. Acho que ele já é um mártir. Ele,
o Brizola etc., que merecem espaço na história nacional.
Nós, jovens, não temos um político no qual
nos espelhar. Os jovens, o presidente da UNE e outros se filiam
ao Partido Comunista, aos partidos pequenos, e não aparece
uma força jovem. Acho que a única pessoa que tinha
uma certa condição era o filho de ACM, que faleceu.
Hoje, temos o Ciro Gomes como única esperança. Isso
me entristece muito. Pensamos em anular o voto, ou votar na Marta
Suplicy para prefeita. Pergunto: o senhor citou muitos nomes na
sua lista de políticos, mas poucos com foco nacional. Na
minha opinião, faltaram dois, e eu queria que falasse sobre
eles: o Eduardo Suplicy e o Orestes Quércia.
Gaudêncio Torquato
A meu ver, Eduardo Suplicy é um grande senador, mas não
tem perfil para uma candidatura presidencial. Tem imagem de aguerrido,
de decidido, controla tudo, acompanha tudo. Mas às vezes
fala demais e não conclui seu pensamento. Parece haver nele
um vácuo entre o momento de pensar e o momento de exprimir
o verbo. E essa lentidão o torna meio catatônico. Quércia
é um nome forte dentro do PMDB paulista, mas tem um alto
índice de rejeição. Tenho a impressão
de que prefere, hoje, ser um grande empresário.
Qual sua opinião quanto à privatização
das universidades?
Gaudêncio Torquato
Sou contra. Como professor há trinta anos, defendo a universidade
pública. Não tem nenhum sentido hoje a privatização
da escola pública. O conceito de escola pública deve
abrigar o conceito de qualidade, aperfeiçoamento, de pesquisa,
da instituição que propicia acesso ao estudante que
não tem condições de pagar uma escola privada.
|
|