Entrevista para Revista Agitação nº 43
Matéria CAPA - Setor: Política

Gaudêncio Torquato

1. De que modo o cenário político mundial afeta a cenário político brasileiro? Nesse sentido, quais são as perspectivas políticas para os próximos anos?

O mundo se torna cada vez mais interdependente. As economias se interpenetram e as fronteiras geográficas se avizinham. A mundialização dos mercados e a integração dos sistemas políticos geram processos de afetação recíproca entre países, a ponto de se dizer que um espirro na Ásia provoca uma gripe no Brasil. Nesse sentido, o Brasil não pode ser considerado uma ilha de segurança no oceano bravio da internacionalização. É claro que os países recebem, de maneira diferente, os processos que desestabilizam seus parceiros internacionais. O Brasil, por exemplo, como fez a lição de casa, no que concerne aos compromissos internacionais, entre os quais a desestabilização do Real face ao dólar, está razoavelmente descolado da hecatombe que abala a seu vizinho e parceiro do Mercosul, a Argentina. O atentado de 11 de setembro dos Estados Unidos afetou o sistema internacional, ao eleger a temática da segurança para o primeiro plano das preocupações mundiais, deixando, em segundo plano, questões mais atinentes ao desenvolvimento. Por outro lado, o terrorismo deslocou a atenção dos Estados Unidos para p sudeste asiático e o oriente médio, deslocando a América Latina para um plano secundário. De qualquer forma, mesmo com o sistema mundial afetado contaminado com a questão do terrorismo, que gera uma cultura mais conservadora nos países do Primeiro Mundo e certo refluxo nas políticas voltadas para o fortalecimento da Cidadania, as perspectivas são boas para o Brasil. O país dispõe de potenciais fantásticos, tem dimensão continental e desponta como um dos mais promissores espaços no campo do agronegócio, sendo apontado como um dos celeiros do mundo, portanto, com identidade de potência na área dos alimentos. As perspectivas são, dentro desta ótica, muito boas. Poderiam ser melhores, caso tivéssemos mais ordem e racionalidade na classe política.


2. Pode-se dizer que o modelo político brasileiro passou por mudanças (se possível, citar algumas) que hoje garantem uma estrutura democrática - que começa a ser reconhecida internacionalmente? Politicamente, qual a imagem do Brasil no exterior? O que há de positivo e negativo?

O Brasil é ciclotímico, passando por ciclos autoritários a ciclos democráticos. Tivemos o ciclo autoritário da ditadura Vargas, entramos na redemocratização, a partir da Constituição de 46, vivemos ameaças de golpes, deparamo-nos com o suicídio de Getúlio, em 54, a eleição democrática de Juscelino Kubistchek, a eleição de Jânio, e sua incrível renúncia. Depois, Jango foi deposto pelos militares e entramos no ciclo dos anos de chumbo da ditadura militar, que vai de 1964 até o final do Governo Geisel, princípios de 79, quando tomou posse o último general do ciclo pesado, o general de cavalaria, João Figueiredo. Conhecemos, depois, nova redemocratização, com a abertura política e a campanhas das Diretas, comandada por dr. Ulisses Guimarães. De lá para cá, o Brasil aperfeiçoou seus mecanismos democráticos, elegeu, indiretamente o dr.Tancredo Neves, a grande esperança, que não chegou a assumir. Depois de Sarney, que abriu os pulmões democráticos do país, mas deixou uma inflação gigantesca, elegemos Collor, que nos deu aquele monumental susto, com o confisco das poupanças. O Brasil democrático tirou-lhe o mandato, graças à pressão da população sobre o Congresso Nacional. Elegemos, depois, Fernando Henrique, para dois mandatos, o Brasil ganhou respeito dos grandes países, depois de domar o dragão da inflação e estabilizar a moeda, o Real. Fizemos as reformas econômicas, o Estado recebeu impulsos de mudanças, apesar de algumas grandes reformas ainda não estarem na gaveta: as reformas política e tributária. Mas o país cresceu, avançou, modernizou-se. Temos um grande sistema de telecomunicações, indústrias de ponta, projetos avançados em muitas áreas, inclusive na área de biotecnologia. Mas persistem grandes problemas, como a perversa distribuição de renda, o desemprego ainda muito alto, a violência generalizada, que nos faz lembrar um estado de guerra permanente contra as gangues. Temos, porém, de acreditar no país. O eleitorado está mais racional, mais consciente e responsável. E a classe política, apesar dos escândalos de envolvimento com corrupção, está melhorando de qualidade. Sob pressão da opinião pública. A imagem positiva é a de um país com economia estável; a imagem negativa é formada pela violência, pela desigualdade de renda e por alguns índices de desenvolvimento humano, muito baixos, em comparação com a média de determinadas Nações modernas.

3. Quais os fatores e as ações que podem determinar mudanças no atual cenário político brasileiro?

Mudanças poderão ocorrer para melhor com a realização das reformas política e tributária; com a eleição de representantes mais comprometidos com os ideais de Cidadania; com um programa efetivo de combate à violência; com melhor e mais justa distribuição de renda; com um programa de desenvolvimento auto-sustentado, capaz de responder pela política de pleno emprego e consolidação do nosso parque industrial. Para tanto, será necessário preservar o conjunto de reformas econômicas e a estabilidade monetária.

4. Na sua opinião, o Senhor acredita que demos um salto político? Se sim, de que forma?

Sim, de acordo com respostas anteriores.

5. Estamos em um ano de eleições, o que podemos esperar do cenário político? Na sua opinião, quais as tendências da política brasileira para os próximos anos? Independente de quem ganhar as próximas eleições para Presidente da República, como tem que chegar esse novo Governo para processar as reformas necessárias no Brasil?

As eleições deste ano serão as mais importantes das últimas décadas, na medida em o novo mandatário haverá de consolidar as conquistas feitas e avançar o país no caminho do desenvolvimento, com inserção social. Ou seja, o desafio é o de inserir os 50 milhões de brasileiros que estão fora do mercado de consumo, dando-lhes oportunidades e justiça social. O Brasil tenderá a aprimorar seu sistema política, com a modernização institucional, a escolha de representantes mais sérios e devotados às causas do povo. Os 115 milhões de eleitores brasileiros deverão votar com mais consciência e responsabilidade. O candidato com as melhores propostas deverá ser eleito: propostas viáveis, que possam beneficiar o maior número de pessoas, com o menor custo e no tempo mais rápido possível. Esses são os parâmetros para se medir uma boa proposta. Nenhum governante se sustentará caso queira fazer mudanças que não sejam condizentes com o espírito nacional.

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