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Gaudêncio Torquato
1. De que modo o cenário político
mundial afeta a cenário político brasileiro? Nesse
sentido, quais são as perspectivas políticas para
os próximos anos?
O mundo se torna cada vez mais interdependente. As economias se
interpenetram e as fronteiras geográficas se avizinham. A
mundialização dos mercados e a integração
dos sistemas políticos geram processos de afetação
recíproca entre países, a ponto de se dizer que um
espirro na Ásia provoca uma gripe no Brasil. Nesse sentido,
o Brasil não pode ser considerado uma ilha de segurança
no oceano bravio da internacionalização. É
claro que os países recebem, de maneira diferente, os processos
que desestabilizam seus parceiros internacionais. O Brasil, por
exemplo, como fez a lição de casa, no que concerne
aos compromissos internacionais, entre os quais a desestabilização
do Real face ao dólar, está razoavelmente descolado
da hecatombe que abala a seu vizinho e parceiro do Mercosul, a Argentina.
O atentado de 11 de setembro dos Estados Unidos afetou o sistema
internacional, ao eleger a temática da segurança para
o primeiro plano das preocupações mundiais, deixando,
em segundo plano, questões mais atinentes ao desenvolvimento.
Por outro lado, o terrorismo deslocou a atenção dos
Estados Unidos para p sudeste asiático e o oriente médio,
deslocando a América Latina para um plano secundário.
De qualquer forma, mesmo com o sistema mundial afetado contaminado
com a questão do terrorismo, que gera uma cultura mais conservadora
nos países do Primeiro Mundo e certo refluxo nas políticas
voltadas para o fortalecimento da Cidadania, as perspectivas são
boas para o Brasil. O país dispõe de potenciais fantásticos,
tem dimensão continental e desponta como um dos mais promissores
espaços no campo do agronegócio, sendo apontado como
um dos celeiros do mundo, portanto, com identidade de potência
na área dos alimentos. As perspectivas são, dentro
desta ótica, muito boas. Poderiam ser melhores, caso tivéssemos
mais ordem e racionalidade na classe política.
2. Pode-se dizer que o modelo político
brasileiro passou por mudanças (se possível, citar
algumas) que hoje garantem uma estrutura democrática - que
começa a ser reconhecida internacionalmente? Politicamente,
qual a imagem do Brasil no exterior? O que há de positivo
e negativo?
O Brasil é ciclotímico, passando por ciclos autoritários
a ciclos democráticos. Tivemos o ciclo autoritário
da ditadura Vargas, entramos na redemocratização,
a partir da Constituição de 46, vivemos ameaças
de golpes, deparamo-nos com o suicídio de Getúlio,
em 54, a eleição democrática de Juscelino Kubistchek,
a eleição de Jânio, e sua incrível renúncia.
Depois, Jango foi deposto pelos militares e entramos no ciclo dos
anos de chumbo da ditadura militar, que vai de 1964 até o
final do Governo Geisel, princípios de 79, quando tomou posse
o último general do ciclo pesado, o general de cavalaria,
João Figueiredo. Conhecemos, depois, nova redemocratização,
com a abertura política e a campanhas das Diretas, comandada
por dr. Ulisses Guimarães. De lá para cá, o
Brasil aperfeiçoou seus mecanismos democráticos, elegeu,
indiretamente o dr.Tancredo Neves, a grande esperança, que
não chegou a assumir. Depois de Sarney, que abriu os pulmões
democráticos do país, mas deixou uma inflação
gigantesca, elegemos Collor, que nos deu aquele monumental susto,
com o confisco das poupanças. O Brasil democrático
tirou-lhe o mandato, graças à pressão da população
sobre o Congresso Nacional. Elegemos, depois, Fernando Henrique,
para dois mandatos, o Brasil ganhou respeito dos grandes países,
depois de domar o dragão da inflação e estabilizar
a moeda, o Real. Fizemos as reformas econômicas, o Estado
recebeu impulsos de mudanças, apesar de algumas grandes reformas
ainda não estarem na gaveta: as reformas política
e tributária. Mas o país cresceu, avançou,
modernizou-se. Temos um grande sistema de telecomunicações,
indústrias de ponta, projetos avançados em muitas
áreas, inclusive na área de biotecnologia. Mas persistem
grandes problemas, como a perversa distribuição de
renda, o desemprego ainda muito alto, a violência generalizada,
que nos faz lembrar um estado de guerra permanente contra as gangues.
Temos, porém, de acreditar no país. O eleitorado está
mais racional, mais consciente e responsável. E a classe
política, apesar dos escândalos de envolvimento com
corrupção, está melhorando de qualidade. Sob
pressão da opinião pública. A imagem positiva
é a de um país com economia estável; a imagem
negativa é formada pela violência, pela desigualdade
de renda e por alguns índices de desenvolvimento humano,
muito baixos, em comparação com a média de
determinadas Nações modernas.
3. Quais os fatores e as ações
que podem determinar mudanças no atual cenário político
brasileiro?
Mudanças poderão ocorrer para melhor com a realização
das reformas política e tributária; com a eleição
de representantes mais comprometidos com os ideais de Cidadania;
com um programa efetivo de combate à violência; com
melhor e mais justa distribuição de renda; com um
programa de desenvolvimento auto-sustentado, capaz de responder
pela política de pleno emprego e consolidação
do nosso parque industrial. Para tanto, será necessário
preservar o conjunto de reformas econômicas e a estabilidade
monetária.
4. Na sua opinião, o Senhor
acredita que demos um salto político? Se sim, de que forma?
Sim, de acordo com respostas anteriores.
5. Estamos em um ano de eleições,
o que podemos esperar do cenário político? Na sua
opinião, quais as tendências da política brasileira
para os próximos anos? Independente de quem ganhar as próximas
eleições para Presidente da República, como
tem que chegar esse novo Governo para processar as reformas necessárias
no Brasil?
As eleições deste ano serão as mais importantes
das últimas décadas, na medida em o novo mandatário
haverá de consolidar as conquistas feitas e avançar
o país no caminho do desenvolvimento, com inserção
social. Ou seja, o desafio é o de inserir os 50 milhões
de brasileiros que estão fora do mercado de consumo, dando-lhes
oportunidades e justiça social. O Brasil tenderá a
aprimorar seu sistema política, com a modernização
institucional, a escolha de representantes mais sérios e
devotados às causas do povo. Os 115 milhões de eleitores
brasileiros deverão votar com mais consciência e responsabilidade.
O candidato com as melhores propostas deverá ser eleito:
propostas viáveis, que possam beneficiar o maior número
de pessoas, com o menor custo e no tempo mais rápido possível.
Esses são os parâmetros para se medir uma boa proposta.
Nenhum governante se sustentará caso queira fazer mudanças
que não sejam condizentes com o espírito nacional.
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