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GAUDÊNCIO TORQUATO - Professor Titular da
USP - áreas de comunicação política,
marketing político e comunicação organizacional.
Consultor de campanhas políticas, tendo planejado e coordenado
diversas campanhas majoritárias e proporcionais em todo o
país.
1. A falta de interesse do eleitorado em temas nacionais
tem prejudicado os candidatos do PSDB nas eleições
municipais?
GT.
Em primeiro lugar, é preciso dizer que o PSDB deixou de ser
exemplo de partido político de qualidade. Caiu na geléia
geral dos partidos. Em segundo lugar, é bom lembrar que o
Real já se esgotou como moeda política. Já
deu tudo o que tinha de dar. Fernando Henrique também começa
a saturar com seus discursos dissertativos. O Palácio do
Planalto transformou-se em um simples campo de oratória.
O presidente esticou até onde pode seu poder de argumentação.
Estamos todos cheios de conceitos, de planos que não saem
do papel. O discurso federal está agonizante. Esta eleição
marca o início de um novo ciclo: o ciclo da racionalidade,
da percepção mais acurada do fenômeno político.
Por falta de novas lideranças, o povo se volta em direção
àqueles que já conhecem, por mais polêmicas
que sejam suas figuras. Vejam o caso do César Maia, um histriônico.
Está fatiando o Rio de Janeiro com obras. O eleitor gosta,
apesar dos percalços que provoca. Quem diria que Maluf, que
já foi sinônimo de coisa ruim, hoje tem uma imagem
associada ao politicamente correto? Isso ocorre porque Maluf soube
se adaptar aos tempos, soube interpretar os novos valores. No outro
lado, estão partidos como o PSDB, intérprete maior
da temática nacional, que age como um deus olimpiano, distante
e vagando nas núvens. José Serra é seu paradigma.
2. A discussão dos temas locais, de interesse do
bairro onda mora o eleitor, sinaliza em que direção?
GT.
O maior sinal que esta campanha está indicando é o
do fortalecimento da micropolítica. As discussões
globais, as questões de caráter genérico, envolvendo
eixos macropolíticos - emprego, inflação, redistribuição
de renda, pobreza e fome - cedem lugar ao conjunto temático
da dura realidade imediata. Os cidadãos estão querendo
ver coisas simples e concretas: a melhoria no bairro e na sua rua,
o asfalto, a drenagem; a segurança, o meio de transporte
barato, o atendimento médico rápido e eficiente. A
conscientização política está chegando
na cozinha de cada família. Envolve todos, do dono da casa
à empregada. Um monumental esquema de capilarização,
montado a partir da mídia massiva, coloca todos os brasileiros
ao redor da mesma mesa. Mesa, onde o cardápio é regado
à verdade e à objetividade. Depois de Collor, uma
vacina ética inoculou o país, derrubando mitos, versões,
marionetes e falsos heróis. Todos, agora, estão molhados
pela água da precaução. E voltados para a satisfação
das expectativas mais imediatas. Esse caldo cultural explica a razão
pela qual os cidadãos abandonaram o transatlântico
das grandes temáticas para se refugiar numa canoa simples,
mais disponível e fácil de dirigir. Trata-se, de certa
forma, da distritalização da política, fenômeno
que costuma ocorrer em sociedades mais aculturadas politicamente.
O Brasil, felizmente, está dando passos vigorosos no caminho
da racionalidade política.
3. Até que ponto os prefeitos das grandes capitais
estão conseguindo eleger seus sucessores por causa do reforço
de seus caixas devido à Constituição de 1988?
GT.
Certamente, dinheiro é a mola mestra de um denso programa
de ação. Sem dinheiro, as grandes Prefeituras não
teriam a visibilidade que apresentam. A Constituição
de 88 engordou os cofres das grandes máquinas administrativas
municipais, enxugando bastante os cofres estaduais e da União.
Cesar Maia e Maluf, ambos tocados pelo obreirismo faraônico,
estão conseguindo projetar seu estilo-trator junto ao eleitorado
porque têm caixa para tanto. Junte-se um conjunto de obras,
que o povo gosta, com marketing bem elaborado - que também
depende de dinheiro - e se consegue a alquimia de uma aprovação
consagradora. Mas é preciso lembrar que dinheiro, sozinho,
não faz milagres. O marketing, também sozinho, não
vai muito longe. É preciso que se tenha, sobretudo, um bom
candidato, capaz de firmar e expressar forte identidade, que saiba
interpretar a vontade social, que tenha discurso articulado e seguro
e um amplo sistema de comunicação e mobilização.
Claro, que disponha de patrocinadores com grande cacife eleitoral.
4. Os bons resultados dos favoritos dos prefeitos não
resultariam exatamente do uso de mais verba na publicidade da campanha?
GT.
Como já frisei, não se elege um candidato apenas
com dinheiro.Lembro um caso quase antológico. Na última
campanha para os Governos Estaduais, no Piaui, estado mais pobre
do país, portanto sujeito às pressões fisiológicas
e ao mandonismo político, havia dois candidatos que polarizaram
a campanha. De um lado, Átila Lira (PFL), ex-deputado, candidato
apoiado pelo governador que deixava o Governo para se eleger senador
- Freitas Neto - pelo senador Hugo Napoleão, uma espécie
de vice-rei do Piaui e pelo senador Lucídio Portela. Átila
Lira contava, ainda, com o apoio da quase unanimidade dos 150 prefeitos
do Piaui, na época. Tinha o apoio da máquina de comunicação.
Quem ganhou a campanha, porém, foi um sujeito chamado Mão
Santa, médico, que se utilizou do poder simbólico
de sua mão. Mão que fizera centenas de intervenções
cirúrgicas em pessoas pobres. Para o povo, era um milagreiro,
um enviado de Deus. Mão Santa, pobre e histriônico,
é o atual governador. Enfrentou o dinheiro e a máquina.
Quando o povo vai numa direção, não há
marketing que consiga reverter sua posição. É
como o vento. Ninguém consegue mudar a direção
do vento. Publicidade só é eficiente quando se tem
algo bom para se apresentar. No marketing político, o desafio
é maior, porque candidato não é produto. A
qualquer hora, usando apenas a boca, poderá desestabilizar
o plano ajustado de uma campanha.
5. Até que ponto esta eleição está
consagrando definitivamente a figura do publicitário de campanha,
tipo Duda Mendonça, em São Paulo?
GT.
É preciso se ter cuidado, muito cuidado, com o endeusamento
dos marqueteiros e publicitários. Como um deles, sou forçado
a reconhecer que uma vitória eleitoral é produto que
reúne elementos como um bom candidato e um bom programa.
Depois vêm os patrocinadores e o esquema de marketing, aí
entendidas as estratégias de planejamento e criação
em comunicação, de pesquisa quantitativa e qualitativa,
de mobilização e articulação com a sociedade.
Nesta campanha, o publicitário ganhou mais destaque em função
da orientação da nova lei eleitoral, que exige maior
criatividade, mais dinâmica, mais publicização,
ou seja, mais comerciais. No caso de São Paulo, é
oportuno lembrar que Pitta não foi escolhido por acaso. Trata-se
de um candidato preparado, seguro, asséptico em política,
patrocinado por um prefeito com aprovação popular.
Foi escolhido em função de seu potencial de crescimento.
Portanto, há que se analisar o contexto, a especificidade
de cada campanha. Olhe para o caso do Loducca, que fazia a campanha
do PT. Trata-se de um publicitário jovem, criativo e muito
festejado. No entanto, foi triturado pelos atritos internos do partido.
A minha crença é a de que o estrategista, o planejador
com visão sistêmica, com olhos voltados para todos
os movimentos de uma campanha, este, sim, será cada vez mais
valorizado. Mais uma vez, é preciso que se diga: não
é apenas programa de TV ou de rádio que ganham campanha.
6. Essa despolitização da eleição,
provocada pela submissão às normas do marketing político,
é uma notícia boa ou má?
GT.
O que está havendo é uma despolitização
da política, dentro de um fenômeno geral que aponta,
ainda, para o declínio dos parlamentos e dos partidos; para
o arrefecimento das oposições funcionais e clássicas.
A clivagem ideológica, hoje, não ocorre na forma como
se processava há décadas. Tem havido um amalgamento
de doutrinas, de conceitos, de posicionamentos. Há uma certa
convergência em direção ao centro das doutrinas.
Quem, em sã consciência, poderá distinguir valores
entre os conceitos de social-democracia, social-liberalismo, democracia-neo-social,
neo-liberalismo-social, socialismo-liberal etc? Colocados em frascos
diferentes, exibem a mesma coloração. Mas isso não
quer significar a despolitização do cidadão.
Este passa a incorporar posições que mexem com suas
necessidades mais imediatas. Ele apenas está se afastando
do anacronismo das visões tradicionais, da política
maniqueista manobrada pelos grandes esquemas. Hoje, os cidadãos
se tornam mais participativos, engajados, conscientes e interessados
em avançar os conceitos da própria política.
7. Em sua opinião, o povo está realmente
apoiando a hipótese da reeleição dos mandatários
executivos ao apoiar os candidatos dos prefeitos?
GT.
O povo brasileiro está querendo dar uma lição
aos governantes. Esta lição tem alguns mandamentos:
primeiro, é preciso acabar com o sentido destrutivista na
administração brasileira, pelo qual um sucessor se
acha no direito de destruir ou mudar o curso da obra de seu antecessor;
quem fez bem, deverá continuar na administração;
segundo princípio - o melhor é o provado, o experimentado,
ou alguém que certamente vai cumprir um programa que está
dando certo; terceiro, não há mais vez para a improvisação,
o amadorismo; quarto, dispensam-se grandes heróis; o herói
que o povo quer é o defensor da rua. Portanto, há
na sociedade uma cultura propícia à reeleição,
à aprovação dos administradores que provaram
eficiência. O diabo é que a reeleição,
se em tese está sendo aprovada, na prática terá
de passar por muitos obstáculos, em função
das novas condições e dos agentes políticos
que dominarão a cena, após as eleições.
Principal peça da equação da reeleição:
Paulo Maluf.
8. Até que ponto, a seu ver, os resultados finais
destas eleições influirão nas campanhas eleitorais
de 1998?
GT.
Influirão e muito. Se Maluf levar Pitta à vitória,
em São Paulo, depois de suas conhecidas férias de
um mês, fora do país, voltará montado no cavalo
da campanha presidencial. Como podemos prever, ensaiará um
percurso, que começará no interior de São Paulo.
Daí percorrerá todo o país. A campanha será
antecipada. FH ficará no desespero de segurar os peemedebistas
e pefelistas, que serão atraídos pela onda malufista.
Como tem a caneta na mão, FH disporá sempre de cacife
forte. Maluf contará, porém, com aquele irrefreável
desejo, presente no coração de cada político
brasileiro: a expectativa de poder. Saindo de São Paulo com
uma bacia de 10 a 12 milhões de votos, estará credenciado
como o principal concorrente. Agora, é preciso considerar
o seguinte: o melhor candidato para enfrentar Maluf continuará
a ser FH. Portanto, com chances de ganhar a eleição,
FH poderá até garantir base parlamentar suficiente
para aprovar a reeleição. Será um verdadeiro
cabo de guerra. Como se vê, esta eleição é
o vestibular de 98.
9. O que seria necessário para sustar a caminhada
de Maluf rumo ao Planalto?
GT.
Para sustar a decolagem de Maluf, só mesmo um Real Dois,
algo forte na área social. O Governo FH precisa deslanchar
nessa área. O governo está atacando o desemprego com
folhas de papel. O pãozinho francês e o frango de um
real já estão na barriga dos pobres. É o mínimo
que o Governo poderia fazer. Falta, agora, a revolução
do emprego. Falta a retomada do desenvolvimento. Falta o impulso
juscelinista. Falta a garra para correr o país, colocar o
pé na estrada. Falta ao Governo FH sensibilidade para perceber
a realidade além de Brasília e de São Paulo.
FH parece que está acima de tudo e de todos. É um
homem preparado para governar o mundo, dirigir a ONU, um político
de dimensão intercontinental. No entanto, está perdido
entre os seus. Vai aos sertões, como se estivesse encenando
uma liturgia estranha. Ele gosta mesmo é de uma tertúlia
intelectual, regrada ao melhor do que a Sorbonne pode exibir. Gosta
de dar um show de conhecimento e cultura. E o homem é bom
mesmo. Ocorre que o povo gosta mesmo é de comer sardinha,
pão com manteiga, feijão e arroz. Tomar um cafezinho,
vez ou outra, em um dos raros botecos de Brasília, é
cena para inglês ver. É marketing muito artificializado.
Fernando Henrique precisa fazer uma reforma ministerial em profundidade,
contemplando as bases políticas que o apoiam, adensando o
corpo ministerial com nomes de peso, qualificando sua assessoria
mais próxima, acabando com a rede informal de comunicação
no Palácio do Planalto, correndo o país, buscando
tradição mudancista do povo. Ele continuará
a ter chances de garantir sua vontade de mudar, renovando, por exemplo,
as bases da representação parlamentar nos níveis
municipal, estadual e federal. O Congresso Nacional está
sendo renovado em dois terços a cada legislatura. Os Executivos
também poderão ser renovados, caso não tenham
ganho o passaporte para a continuidade. Como se vê, não
há contradição entre a tese da reeleição
e a tese da renovação política. Se é
para renovar, que se mudem apenas pessoas ou situações
que estejam fraquejando ou gerando insucesso.
10. O continuismo detectado nas pesquisas até agora
demonstra uma marcha na direção de uma democracia
do tipo americano?
GT.
Demonstra, sobretudo, o avanço da racionalidade política.
Há 12/15 anos, podíamos dividir o eleitorado brasileiro
nas seguintes categorias: o eleitorado inorgânico, amorfo,
tendente a votar a torto e a direito, girava em torno de 30%; o
eleitorado fisiológico, tradicional, preso nos currais eleitorais,
estava em torno de 25%; o eleitorado racional, com voto amparado
na consciência, era de 15%; o eleitorado clássico,
de esquerda, tinha cerca de 15%; o eleitorado de direita, 10% e
os bolsões de fé, 5%. Hoje, o eleitorado racional
está em torno de 30%, caindo os contingentes fisiológicos
e amorfos para um índice em torno de 20%, cada um. Portanto,
podemos concluir que a maior parte do eleitorado brasileiro, em
torno de 105 milhões de votantes, começou a ingressar
no ciclo da racionalidade política, onde despontam os valores
da ética, da clareza de propósitos, da objetividade,
da simplicidade e do sentimento de proximidade entre agente-político
e eleitor.
11. Isso contribui, ou não, para a estabilidade
de nossa democracia?
GT.
É claro que o adensamento da racionalidade é sinal
de maturidade política. E maturidade conduz, necessariamente,
à maior e melhor institucionalização política.
Significa dizer que os cidadãos, mesmo desconfiantes e descrentes
na representação política tradicional, consideram-na
de fundamental importância para a estabilidade do país.
Demonstração de vigor democrático é
ainda o fortalecimento de nossas organizações intermediárias,
os sindicatos, as associações, as federações,
os clubes, as centrais. Trata-se da malha institucional mais diretamente
ligada aos interesses da cidadania. Quando essa malha se torna mais
forte, como está ocorrendo, hoje, em nosso país, é
sinal de que a esperança ainda faz a festa nos corações
e nas mentes de milhões de brasileiros.
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