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Eleitor está cada vez mais racional e exigente,
de olho no fisiologismo sobretudo no Município, alerta expert.
Malu Marcoccia
Atenção senhores políticos ou candidatos a:
pelo menos 70% dos eleitores brasileiros já pertencem aos
chamados redutos racionais, onde o voto deixa o coração
para subir à cabeça, nas palavras de um especialista
no assunto, Gaudêncio Torquato, consultor de Marketing Institucional
e Político. Em linguagem bem simples, isso quer dizer que
a população está se deixando levar menos por
discursos e fazendo mais pressão por ações
práticas, sobretudo por serviços mais próximos
do cotidiano, como escola, transporte e segurança. Esse universo
da micropolítica, como chama o professor da USP (Universidade
de São Paulo), se dá basicamente na municipalidade,
portanto, junto a prefeitos e vereadores. "O eleitorado está
olhando muito para o fisiologismo. Prefeitos e vereadores têm
de tomar cuidado" - avisa Gaudêncio Torquato com a autoridade
de quem já planejou e coordenou desde campanha para a Presidência
da República, em 1989, e para o governo do Estado de São
Paulo, em 1990, até para mais de 20 prefeituras de diversos
Estados.
O consultor é otimista ao afirmar que o político
ineficaz não elege mais o sucessor nos centros mais desenvolvidos
do País e que vem aí uma fornada de líderes
modernos. Eles estariam mais embasados no que chama de discurso
de compromisso, até por força de uma sociedade mais
exigente e participativa, embora ache que grandes compromissos sociais,
mesmo, só daqui uns 30 anos. Os caciques estão saindo
de cena aos poucos, acredita. No Grande ABC, Gaudêncio Torquato
assessorou o prefeito Maurício Soares, em São Bernardo,
entre 1998 e 1999. A integração regional sofrerá
certo atraso com a morte de Celso Daniel, de Santo André,
segundo Gaudêncio, que ressalva: "Creio que as idéias
e os planos, quando bem concebidos, não morrem".
Livre Mercado
Não há convicção exagerada
na sua tese de que político ineficaz não mais se
reelege e não faz mais o sucessor? Como explicar o estouro
de Roseana Sarney nas intenções de votos à
Presidência da República sendo ela membro de uma família
que domina há mais de três décadas o Estado
mais miserável e atrasado do País, para citar um fato
recente?
Gaudêncio Torquato
Político ineficaz não faz o sucessor em centros mais
desenvolvidos. Mas há regiões que ainda convivem com
a cultura política tradicional e suas mazelas: o mandonismo,
o fisiologismo, o caciquismo, o clientelismo, o compadrismo. O eleitor
brasileiro está mais consciente e começa a votar de
maneira mais tradicional. O voto deixa o coração para
subir à cabeça. Dos 115 milhões de eleitores,
cerca de 70% já pertencem aos redutos racionais. A herança
do passado, porém, ainda é forte em certos núcleos
do Nordeste, Norte, Centro e Centro-Oeste. Veja o caso de Tocantins,
onde os Siqueiras querem entronizar no poder mais herdeiros da casta.
Roseana, mesmo com o sobrenome Sarney, passa idéia de modernidade.
O fato de ser mulher a ajuda, porque a mulher não está
tão comprometida com a onda de escândalos e denúncias
por que passa o País. Ademais, ela tem se aproveitado bem
da mídia televisiva: é bonita e jovem. Trata-se, portanto,
de um fenômeno de marketing televisivo. Poderá cair
se não exibir discurso, conteúdo, um ideário
que chegue a cooptar o interesse dos eleitores. O Maranhão
foi cosmetizado. Os dados de pobreza do Estado têm sido pouco
divulgados. Roseana, contudo, tem feito boa administração.
Não se deve esquecer, ainda, o fato de que ela conta com
forte apoio do Nordeste, que soma cerca de 27% dos votos. Essa é
a moldura que cerca a candidatura Roseana Sarney.
LM
O senhor se mostra bastante persuadido sobre a mudança, também,
da figura do vereador, que estaria, a seu ver, mais consciente sobre
o papel combativo e fiscalizador que lhe cabe. Várias cidades,
incluindo a Capital, só conseguiram aprovar o polêmico
IPTU progressivo de 2002 com negociações de cargos
e favores junto a vereadores opositores e mesmo de base aliada.
Não lhe parece que o fisiologismo histórico continua
predominante em grandes e sobretudo pequenos municípios?
GT
Sem dúvida, o fisiologismo é uma doença que
corrói o tecido político a partir do primeiro pilar
desse edifício, que é o Município. Tenho constatado
que o nível de conscientização e responsabilidade
política é mais elevado nos graus superiores da representação,
abrangendo deputados federais, senadores etc. Depois, aparecem as
instâncias legislativas nas Assembléias estaduais,
vindo, por último, as Câmaras de Vereadores. Por isso
mesmo em Câmaras de grandes metrópoles, a onda fisiológica
se faz presente. O vereador é espécie de despachante
municipal, precisa de estrutura de poder para ajudar a dar assistência
a seu eleitorado. Há contingentes periféricos que
vivem em grande miséria. Pedem assistencialismo. E o vereador
acaba assumindo posicionamento fisiológico que ultrapassa
a força partidária. Isto é, até os partidos
considerados éticos ou que desfraldam a bandeira ética
agem de maneira fisiológica quando a esfera é a da
Câmara Municipal. Na Capital, o IPTU progressivo foi uma conquista
do fisiologismo praticado pela prefeita Marta Suplicy, do PT.
LM
Que perfil o senhor vislumbra para o prefeito moderno?
GT
O conceito de modernidade na política abriga um conjunto
de valores, entre os quais destaco honestidade pessoal e assepsia
política, ou seja, a distância das práticas
corruptas; a experiência, o preparo, a capacidade; além
da visão de conjunto. Também são importantes
a capacidade para controlar a máquina administrativa, vida
limpa e passado decente, e um programa de trabalho fincado sobre
as reais demandas da população. Completam esse círculo
virtuoso a lealdade partidária, firmeza e atuação
forte em todos campos da administração, entre outros
fatores.
LM
E como forjar liderança com essas qualidades num País
ainda fortemente dominado por clãs e caciques, a ponto de
todas as pesquisas indicarem que Antônio Carlos Magalhães
voltará pelos braços da Bahia?
GT
Forjar uma liderança moderna é desafio complexo, que
passa pelas virtudes pessoais e profissionais dos quadros e vai
até os compromissos assumidos por eles. Os perfis mais aceitos
pelo eleitorado são aqueles que se despojam das riquezas,
que se afastam das redes de corrupção. São
aqueles políticos fiéis aos compromissos partidários,
os mais éticos, os mais honestos. Ora, essas virtudes não
se adquirem na escola, a não ser na escola da vida. O que
se observa é o crescimento desse tipo de perfil.
O cacique, do tipo ACM, está saindo de cena. Não ele,
propriamente, porque será mais uma vez consagrado na Bahia.
Há de se considerar sua trajetória naquele Estado,
onde é uma espécie de imperador, de semi-deus, de
um santo babalorixá. Se quisermos apurar a visão,
devemos medir a força de um cacique em sua região,
porque esse tipo de perfil é, geralmente, proprietário
de meios de comunicação, domina as máquinas
administrativas e perpetua-se no poder por meio de novos coronéis,
seus filhos e netos, os herdeiros. A política brasileira
está mudando, mas a política de grandes compromissos
sociais, com a renovação mais geral de quadros, é
coisa para 30 anos.
LM
À parte o grau de violência que o País atingiu,
o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel trouxe
a debate a eficiência do poder público. Celso Daniel
era unanimidade sobre ser prefeito com mais visão administrativa
e noção de planejamento estratégico, um exemplar
de administração contemporânea que enfatizava,
inclusive, a integração regional para justamente potencializar
as forças individuais de cidades vizinhas. Pelo seu conhecimento
sobre o Grande ABC, o que acontecerá ao Município
e ao projeto integracionista da região com a morte do principal
incentivador?
GT
É claro que o desaparecimento de Celso Daniel provocará
certo atraso no calendário dos ciclos de reforma. Jamais
um sucessor terá o mesmo perfil do antecessor. O sucessor
poderá até ser mais moderno, mais agressivo. Talvez
não seja o caso do sucessor de Celso, em Santo André.
Ele estava comprometido com a coordenação do programa
de governo de Lula e muitas de suas idéias e sentimentos
iriam banhar a moldura pragmática da candidatura petista.
Tratava-se de uma pessoa com grande noção de planejamento,
coordenação, controle, conceitos-chave para um bom
administrador.
Será possível, porém, que a nova administração
queira implantar o legado de Celso Daniel. Basta que esse legado
seja permanentemente lembrado e cobrado pelos meios de comunicação,
que agitam e energizam a opinião pública. Creio que
as idéias e os planos, quando bem concebidos, não
morrem. Podem hibernar por um tempo. Mas voltam com a força
da criatividade e da fortaleza conceitual com que foram concebidos.
LM
Pelo comportamento padrão dos políticos brasileiros,
Celso Daniel parece integrar um grupo de excessões. De modo
muito tímido se espalha pelas esferas de poder no Brasil
o conceito de gerente de cidade, que busca eficiência e qualidade
total em serviços públicos - como Vicente Fox vem
fazendo no México e exigindo dos prefeitos mexicanos, pois
entende que a base de todas as inovações públicas
deve partir das cidades. É possível mexicanizar o
Brasil e diminuir o grau de populismo e de prefeitos reduzidos a
coisas miúdas da política brasileira, ou o senhor
acha que devagarinho está surgindo uma nova geração
de administradores públicos?
GT
Percebo que um dos maiores fenômenos do Brasil contemporâneo
é a organicidade social, ou seja, a capacidade de a sociedade
organizar-se, criar entidades, fazer pressão, contra-pressão,
ir às ruas, denunciar, exigir das autoridades mais ação
e menos discurso. Percebo, ainda, que esse conjunto de pressões
se projeta para as demandas mais próximas e imediatas dos
cidadãos, o que chamo de micropolítica, a política
das coisas do cotidiano: a escola próxima de casa, o transporte
fácil e barato, o alimento farto e acessível, a segurança
sólida. Os cidadãos desejam, cada vez mais, agir de
maneira pragmática, defendendo seus interesses mais urgentes.
E urgência está em torno de sua família, de
sua casa. Portanto, expande-se o ideário da construção
de uma Nação para já, e não a Nação
para os netos e bisnetos.
Tudo isso demanda maior eficiência e eficácia dos governos,
a partir da municipalidade, Ora, onde estão as maiores demandas
dos cidadãos? No território que os abriga; portanto,
na localidade, em seu território, que é o seu bairro,
a sua cidade. Essas demandas, por sua vez, estão a exigir
mais ações imediatas, mais inovações,
maior alavancagem dos programas municipais. A ordem política
começa com a ordem municipal. Ou seja, as mudanças
devem ocorrer de baixo para cima, do Município para as esferas
superiores. Por isso, vereadores e prefeitos passarão a ser
mais cobrados doravante. O eleitorado está olhando muito
para o seu fisiologismo. Eles têm de tomar cuidado.
LM
Essa nova geração de administradores contém
nomes novos ou são herdeiros de políticos tradicionais
que assumem novas posturas?
GT
Há novos nomes comprometidos com um ideário de compromissos
sociais. A Câmara Federal tem muitos deles, mas dispenso-me
de citar nomes para não cometer injustiças. Percebemos,
porém, que entre os herdeiros políticos, que carregam
sobrenomes e a tradição da velha política,
há alguns que possuem identidade própria. A própria
Roseana Sarney, sabe-se, é muito diferente do pai. Artur
Virgílio, deputado pela Amazônia, é impetuoso
e incorpora certa modernidade. Sérgio Machado, empresário
e senador pelo Ceará, é bastante diferente do pai,
o ex-ministro da Viação e Obras Públicas de
João Goulart e ex-deputado Expedito Machado.
Em muitos Estados, podemos distinguir posturas novas, embasadas
no discurso de compromissos. São políticos com bagagem
intelectual formados em batentes acadêmicos, são profissionais
liberais saídos de suas organizações de classe,
são professores vindos dos bancos acadêmicos. As novas
posturas são conseqüência das exigências
de uma sociedade mais consciente de seus direitos, mais participativa
e mais cidadã.
LM
Em que medida a Lei de Responsabilidade Fiscal vai começar
a moralizar a gestão pública, já que a resposta
dos prefeitos aos menores repasses da União e aos limites
para endividamentos e gastos foi um brutal aumento nos impostos
municipais? Ou seja, acharam outra fonte de arrecadação.
O senhor acha que a maioria está realmente preparada para
uma gestão austera e transparente ou vai continuar jogando
para a platéia com grandes (e desnecessárias) obras
e ações?
GT
Sem dúvida, a Lei de Responsabilidade Fiscal é um
instrumento de moralização da administração
pública. Impõe limites de gastos e delimita responsabilidades.
É claro que muitos prefeitos assumiram heranças pesadas
de administrações corruptas e fraudulentas. Por isso,
procuram mecanismos de compensação e aumento de receitas.
Mas a regra geral é de observância dos preceitos da
lei de Responsabilidade Fiscal.
Aumentos de impostos não são mais toleráveis
pela população. Se o governo encontra nesse meio a
única alternativa para viabilizar sua administração,
terá vida curta, pois o eleitorado, mais adiante, vai dar
o troco, vetando suas pretensões de reeleição.
É bom repetir: a sociedade está atenta. E age com
muita força no momento adequado, pois possui a maior arma
contra um político: o voto.
LM
E a população, estaria preparada para exercitar o
que as esquerdas chamam de controle social do Estado, a partir do
estímulo que a LRF dá à prática do orçamento
participativo e de audiências públicas na elaboração
de leis orçamentárias? Não lhe parece que a
montanha de ações voluntárias e de ONGs surgidas
nos últimos anos seja uma demonstração do descrédito
da sociedade nos governantes?
GT
Duas observações se fazem necessárias. Primeiro:
a sociedade se organiza por meio de entidades representativas de
interesses de grupos, o que é absolutamente legítimo.
Segundo: as organizações não-governamentais
constituem, sim, um instrumento de pressão e força
da sociedade e, ainda, uma espécie de contraponto à
mesmice da política. As práticas de orçamento
participativo são aperfeiçoadas quando contam com
o efetivo engajamento das representações sociais,
ou seja, as entidades intermediárias. Nesse sentido, tem
mais força e legitimidade a vontade da entidade do que de
pessoas, isoladamente. O buraco criado no meio da sociedade pela
descrença e decepção com os políticos
adensa a força do universo organizativo. Trata-se de uma
maneira de a população procurar outro tipo de intermediação.
LM
Até que ponto a explosão das metrópoles - que
dá ao Brasil o status único de ter 81% da população
morando nas cidades - ajuda ou atrapalha a boa gestão pública?
Atrapalhar no sentido de dar conta da avalanche de demandas sociais
e impedir a intensa participação de todos, como ocorre
em pequenas comunidades européias. Ajudar no sentido de estarem
nos grandes centros os segmentos privilegiados da população
com capacidade para fiscalizar, vocalizar e pressionar os prefeitos.
GT
A explosão das cidades, com seu conseqüente fenômeno
da conurbação, é fator de complexidade para
as administrações na medida em que as demandas sociais
se expandem de forma geométrica, enquanto as ações
e os recursos financeiros aumentam de maneira apenas aritmética.
O gigantismo urbano traz como conseqüências a proliferação
das mazelas, dentre as quais podemos distinguir as ondas de violência,
a deterioração dos equipamentos urbanos e a competição
entre grupos marginais, com todas as seqüelas que se apresentam
nas metrópoles. Para dar um dado: apenas 10% das estruturas
urbanas do País contam com serviços completos de saneamento
básico, o que denota que o Brasil navega, literalmente, sobre
um mar de lama.
A solução, sabe-se, está na desconcentração,
na descentralização dos serviços, o que resultaria
em melhor atendimento, mais atenção, mais sentido
de prioridade e mais acolhimento às necessidades dos grupamentos
humanos. Infelizmente, no Brasil, as grandes cidades funcionam como
chamarizes para as populações mais jovens, que nelas
vêem melhores condições profissionais. Os meios
de comunicação, particularmente a TV, vendem o glamour
das grandes cidades, colaborando para a criação de
efeitos miméticos - de imitação - das culturas
urbanas.
Precisamos desconcentrar o País, abrir as possibilidades
de cada região, mostrar como o Interior oferece boas perspectivas
de desenvolvimento e progresso. Trata-se de um processo de aculturação
com o qual todos nós, formadores de opinião, estamos
comprometidos.
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