LIMPEZA ÉTICA

O consultor em marketing político e professor titular da Universidade de São Paulo (USP), Gaudêncio Torquato, afirma nesta entrevista que o descrédito na instituição política resultante dos escândalos na Câmara Municipal de São Paulo tem como contraponto a conscientização maior do cidadão sobre a importância de valorizar o voto municipal. Isso servirá para começar uma limpeza ética na política já nas eleições deste ano. Com isso, enganadores perderão espaço e o marketing e a comunicação políticos deixarão de ser simples peças de ficção.

Pedro Yves

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As eleições deste ano são as maiores da história republicana. Quantos eleitores e candidatos teremos?

GT

Nós tivemos na última eleição por volta de 105 milhões de eleitores e devemos ter este ano entre 106 e 107 milhões. Vamos ter de eleger 5.630 prefeitos entre 25 mil candidatos.



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E quantos candidatos a vereador?

GT

Nós vamos ter de 600 a 650 mil candidatos a vereador. Chega-se a esse número levando em consideração que cada partido terá direito a lançar candidatos equivalente a 150% das vagas em cada município. Então você considera uma média de que cada município deve ter três candidatos a vereador por cinco partidos.



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Quer dizer, mesmo com todos esses escândalos a política continua sendo um negócio atraente.

GT

A política deixou de ser um dos escopos da democracia para ser um grande empreendimento. No Brasil, entrar na política tornou-se um grande investimento. É claro que nós devemos considerar também que a sociedade está mais organizada. Ou seja, no Brasil um dos fenômenos que caracterizam a sociedade hoje é a chamada organicidade social, que se dá por intermédio da formação de grupos que se fazem representar por sindicatos, federações, associações etc.



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Isso tem a ver com corporativismo?

GT

Isso tem a ver com a crise do conceito de democracia representativa.



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Como assim?

GT

A democracia na sua concepção original, na Grécia, na reunião da população em torno da Ágora para fazer suas reivindicações, em que cada cidadão opinava e elegia seu representante, que foi a origem, o sonho e a utopia do ideal da liberdade, nos últimos tempos tem passado por uma crise muito grande. Isso em função do não compromisso com as promessas assumidas; eu diria também do não cumprimento do ideal da sociedade. Então, em função dessa crise, nós estamos vendo aqui que a sociedade, até para pôr um contraponto, vamos dizer assim, começa a eleger candidatos de seus setores.. Ou seja, diante do distanciamento do eleitor da instituição política, com a corrupção escancarada pela mídia, o que tem acontecido é que a sociedade passou a se organizar por setores. Hoje temos bancadas ruralistas, banqueiros, profissionais liberais, negros, religiosos, que representam interesses organizados e corporativos da sociedade. E a população em geral está querendo trabalhar com o conceito do micro, do pequeno, da vida das pequenas coisas. Que pequenas coisas são essas: a escola no bairro, o sistema de transporte do bairro, a segurança do bairro, o asfaltamento da rua, a iluminação. Esses são os fatos que interessam o cidadão. Aquelas propostas mirabolantes, grandiosas, estão cedendo lugar a coisas mais imediatas, a um tipo de ação que pode ser feito imediatamente.



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Dentro desse conceito de micropolítica, como é que ficam os candidatos que têm a imagem associada à corrupção? Eles continuam aí e são bons de voto. O eleitor releva essa questão em função da necessidade imediata do bairro?

GT

No Brasil, cada vez mais cresce o voto racional. O voto está subindo para a cabeça, saindo do coração. O eleitor está mais racional e mais exigente. Mas aí você me diz: "Mas tem corrupto que ainda vai se eleger". Tem! O voto em troca de dinheiro, emprego, ainda vai acontecer, mas esse tipo de campanha, esse tipo de candidato está diminuindo no País.



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O eleitor vai ficar com quem, exatamente?

GT

Em São Paulo a gente vê uma coisa interessante. Tem o eleitorado conservador que votou tanto no Jânio, um nome sempre associado à direita, quanto na Erundina, do PT (hoje no PSB). Isso quer dizer que começa a existir uma preocupação muito forte com o compromisso, com a ação mais do que com o discurso. Passa a existir também uma atenção maior para candidatos assépticos, candidatos limpos, que não tenham tido uma vida envolvida com escândalos. Outro dado interessante é que o eleitor busca no candidato o valor da organização do controle. Por isso, a mulher está em ascensão. Ela passa a imagem de organização, de controle do orçamento. Assim como faz com o orçamento doméstico, ela pode fazer com o orçamento municipal. Então, os candidatos estão em ascensão não só em São Paulo, mas em vários estados. Isso significa uma resposta dos eleitores, mesmo do eleitor do homem, à corrupção política, à desorganização das administrações municipais.



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Quer dizer, a mulher passou a simbolizar honestidade na política?

GT

Algo assim.



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Isso seria a busca de uma resposta que no passado já foi ideológica?

GT

Exatamente isso. É uma resposta ao valor da organização, do controle, da limpeza, da ética, que o homem está começando a distinguir na mulher.



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Mas certos candidatos, aliás, muitos candidatos que estão vinculados de uma maneira ou outra a escândalos, continuam aí, firmes e fortes e bons de voto. Quer dizer, não mudou tanto assim a imagem do eleitor. Ou você acredita que este ano vai se começar uma reversão?

GT

Na eleição passada já houve uma renovação acentuada entre os eleitos, algo em torno de 60%. O que se observa é que o escancaramento da corrupção está servindo para melhorar os valores políticos, ou seja, a crise, de uma certa forma, está começando a depurar a política, a fazer uma assepsia, uma vacinação ética na sociedade. Você diz: "Mas os candidatos corruptos continuam sendo eleitos." Eu diria até que eles não terão as votações tão significativas quanto tiveram no passado. Com as denúncias feita pela mídia, as pessoas passam a ter vergonha de votar neles, e até a internet está colaborando para isso. Eu recebi ontem, por exemplo, pelo computador, listas que vieram pela internet dizendo assim: "Atenção. Não vote nesses candidatos, tais", não só daqui de São Paulo, como do Brasil inteiro. Ou seja, começa realmente a acontecer uma limpeza ética no País, devagarinho, até mesmo porque o brasileiro não muda abruptamente.



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E nesse contexto, qual seria a imagem de candidato com chances ou o candidato ideal hoje, na visão do eleitor? O que é preciso, melhor dizendo, para se construir uma boa imagem?

GT

O candidato, ou melhor, uma campanha vitoriosa, exige três coisas: um bom candidato, um bom discurso, e, evidentemente, uma boa comunicação. Muito bem, o que é um bom candidato? Um bom candidato é aquele que, em primeiro lugar, passe a idéia de proximidade com o seu segmento, com o seu eleitor. Ele não pode parecer distante. Em função desse conceito micropolítico de que falei, cada vez mais as pessoas querem votar em candidatos mais próximos. Um bom candidato é quem sabe interpretar bem os anseios, as perspectivas de seu eleitorado. E, claro, que não tenha ficha suja nem seu nome envolvido em escândalos. Ele também deve passar a idéia de autoridade, mas não de autoritarismo. Que seja uma espécie de pai que zela pela segurança dos filhos, da mulher, etc.
Tem de ter um programa mais pé no chão, de compromisso simples e factível. Outra coisa: no discurso o candidato precisa demonstrar que o que ele vai realizar é fácil, demonstrar como conseguir fazer. "Eu vou conseguir tais e tais coisas, com tais e tais verbas, então, estou sabendo quanto custa", ou seja, o eleitor está querendo ver hoje se o que o candidato diz é factível.
No mais, procurar fazer uma campanha cujo discurso apareça na mídia. Aí, ter uma vertente de comunicação é importante. Não adianta ser um bom candidato, ter uma boa proposta, se ele não consegue viabilizar seu discurso junto ao eleitorado. Isso se dá evidentemente pelos meios de comunicação.



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O Brasil tem aquela coisa de que quem fala difícil é um homem culto, logo, mais preparado para exercer o cargo. As pessoas não entendem o que ele fala, mas gostam. Isso ainda vale?

GT

Hoje esse conceito está mudando muito. O eleitor quer compreender o que se fala, quer ver o candidato, olhar nos olhos, ouvir o candidato pessoalmente. Por isso, o marketing televisivo sozinho não é tão eficiente. É preciso usar realmente os canais de apoio da campanha direta: o testa a testa, braço a braço, olho no olho, mão na mão, participar de um mutirão, uma visita a cada casa, bairro...



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Mas isso já é antigo.

GT

Nos últimos tempos os candidatos passaram a achar que a televisão resolvia tudo, o rádio resolvia tudo. Então, porque vão sair às ruas, se existem o rádio e a televisão?



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Os jingles e os adesivos ainda são materiais importantes?

GT

Claro. A comunicação se faz também por meio de materiais, jingles, adesivos, cartazes, bonés, santinhos, outdoor, pichação de muro, tudo isso é importante. Agora, isso não leva o candidato à vitória. Aliás, depois do Collor, o eleitor ficou desconfiado do marketing. O Collor usou, abusou, ultrapassou os limites razoáveis para usar imagens exageradas do marketing esportivo, do atlético, do olímpico, querendo parecer um semideus na Terra. Essas campanhas com apelos do tipo "Maluf fez, Maluf faz...". Essa coisa toda que a gente vê e sabe que não é bem assim. Então o que aconteceu foi uma certa desconfiança em relação a essa superplástica, super estética da televisão, que é aquele discurso muito enfeitado, que a gente percebe que há muita ficção. Mais do que nunca, o eleitor quer ver coisas simples, objetivas, menos encantadoras pela forma e mais pelo conteúdo.



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De qualquer maneira, me parece que o eleitor não liga muito para eleição de verdade. Vota em quem pede o voto na boca de urna.

GT

E realmente ainda hoje, se você perguntar em quem a pessoa votou, 95% dos eleitores não sabem em quem votou para vereador. E veja bem, pode até ser que, por exemplo, 78% dos eleitores chegam perto dessas eleições dizendo "eu não sei em quem vou votar", mas eu acredito que haverá uma preocupação maior na reta final, na escolha do nome. Em quem realmente eu vou votar? Já que há tanto candidato aí que está envolvido em escândalos, eu vou então escolher o melhor. Quer dizer, na reta final dessa campanha o eleitorado brasileiro olhará com mais preocupação para o candidato que irá escolher. A crise que se abate hoje sobre a Câmara Municipal de São Paulo serviu para fazer o cidadão olhar de perto a instituição que é a Câmara.



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Dentro do contexto em que você coloca o eleitor hoje em dia, como fica o papel do publicitário, do marqueteiro, em relação ao candidato? Como ele deve trabalhar a imagem do candidato?

GT

Eu não gosto muito desse nome, mas o marqueteiro é a figura imprescindível no aconselhamento e na assessoria ao discurso do candidato. Eu acho que ele e o consultor político são fundamentais na campanha para interpretar pesquisas, para definir os conteúdos prioritários e secundários do candidato, para orientá-los sobre o direcionamento do discurso, para organizar a estrutura de sua campanha, para organizar um programa de televisão, para ordenar o esquema de mobilização de uma campanha, para fazer articulação política.
Então, eu vejo o trabalho do marqueteiro ou do consultor nas quatro pernas fundamentais do marketing. Na pesquisa, na formulação, no acompanhamento e na interpretação das pesquisas. E não só nas pesquisas quantitativas, mas nas qualitativas, na área de pensamentos de grupos de ressonância, para a definição do discurso de direção estratégica da comunicação, na formatação dos canais, na organização dos programas, na articulação com a sociedade, com grupos organizados, na tentativa de fechar acordo com outros partidos, etc. E também na mobilização para eventos, comícios, showmícios, carreatas, passeatas, corpo a corpo. Enfim, no trabalho que visa colocar o candidato junto ao eleitor diretamente. E também na organização do espaço geográfico, no planejamento para ocupação geográfica dos espaços eleitorais.
É importantíssimo tudo isso porque, por mais que tenha intuição, ao candidato muitas vezes falta a visão lógica, apurada, essa disciplina de sentido de planejamento.



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Qual é a ferramenta de comunicação mais importante para o candidato hoje em dia? É a televisão?

GT

Todas. Olha, engana-se quem acha que seja só a televisão. Em algumas regiões é o rádio. Nelas é o rádio que acorda as pessoas. É claro que a televisão é importante no horário nobre, mas muita gente sai da frente do aparelho quando começa o horário eleitoral, que é chato. A televisão é importante nos debates, no aspecto mais polêmico. Por isso, o grande segredo de uma campanha é a conjunção destes quatro eixos fundamentais: pesquisa, comunicação, articulação e mobilização. O trabalho conjunto desses eixos, na minha visão, dá ao candidato a possibilidade de chegar ao paraíso.



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Por outro lado, isso quer dizer também que o investimento que o candidato ou partido tem de fazer ficou mais caro.

GT

Ao contrario. A gente calculava na última campanha que o voto no Brasil custava em torno de R$ 14 a R$ 15. Hoje custaria, em média, a metade. Houve um refluxo de dinheiro porque, antes do programa de privatização, havia muitos patrocinadores de campanhas políticas, empreiteiros por exemplo, que tinham interesse em ter acesso ao Estado, às licitações. Com a privatização houve um refluxo; o Estado deixou de ser um grande negócio. Então ficou mais difícil você arrecadar fundos para as campanhas eleitorais.



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Então as campanhas ficaram mais pobres?

GT

Elas ficaram com menos recursos. Eu diria que muitos candidatos tiveram que colocar um pouco a mão no bolso. Porque antigamente eles não precisavam. Ao contrário, muitos candidatos saíam da campanha com um dinheiro que não tinham antes.



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A sucessão de escândalos em todas as esferas políticas não pode levar o povo ao descrédito, a querer a volta do autoritarismo? Existe esse risco?

GT

Eu tenho alertado sobre isso. Tenho dito que existe o risco da eleição de muitos outsiders. Que pode ser desde um "cacareco", orangotango, até um messiânico, alguém que possa representar um super-herói. Esse é perigoso para a democracia.

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