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JORNAL DO INTERIOR - março
2003
Entrevista com o prof. Gaudêncio Torquato
"O ano mais importante para os prefeitos"
O consultor político Gaudêncio Torquato destaca nessa
entrevista ao Jornal do Interior a importância de 2003 para
os administradores. "É preciso examinar promessas, repensar
ações e ouvir a população".
Jornal do Interior - Com a posse do novo presidente, o Brasil inicia
um novo ciclo político. Como as Prefeituras devem se preparar
para ingressar nesse novo ciclo
Prof.Gaudêncio Torquato - A eleição de um ex-metalúrgico,
de origem humilde, para a presidência da República, mostra
que a democracia brasileira está amadurecida e em pleno processo
de consolidação. O eleitorado brasileiro dá mostras
de que detém, efetivamente, o poder, promovendo o rodízio
de governantes e sistemas, quando isso for conveniente ao país.
Elegeram-se presidentes, governadores, senadores e deputados federais,
na esteira de valores que, há algum tempo, vêm ganhando
espaço na sociedade. Cito alguns: a honestidade de propósitos,
a seriedade para com a coisa pública, a transparência,
o compromisso à palavra dada, a solidariedade para com os contingentes
excluídos, a ética. As administrações
estaduais hão de estar sintonizadas com o espírito cívico
que se alastra pelas ruas do país, cobrando mais responsabilidade
e zelo para no trato das questões das populações.
Não há mais espaço para a enrolação,
promessas mirabolantes, desvios e comportamentos amorais. A corrupção
até pode ter continuidade, em alguns setores e espaços
públicos, mas a mídia estará mais atenta e a
atenção social, mais acesa. As Prefeituras hão
de se preocupar mais com a responsabilidade fiscal, melhorando os
padrões de desempenho, controlando melhor os programas, ajustando
o foco, evitando desperdícios, racionalizando as estruturas,
simplificando os processos, chegando mais perto do povo. A palavra-chave
da nova ordem é descentralização com coordenação
centralizada de controles. Descentralizar as funções-fim
da administração e centralizar as funções-meio,
como planejamento, tributos etc.
JI - Qual a importância deste ano - 2.003 - para a fisionomia
das administrações?
GT - Considero 2.003 o mais importante ano da administração
municipal. No primeiro ano, os prefeitos tomam pé da situação,
implantando os processos, as estruturas e os métodos. No segundo,
a semente lançada começa a dar os primeiros bons resultados,
já mostrando algumas árvores frutíferas na floresta.
No terceiro ano, a colheita de frutos será muito farta, porque
a floresta deverá estar quase toda crescida. É o ano
da alavancagem, do amadurecimento dos frutos, do aprimoramento dos
métodos, da correção de rumos, se for o caso.
Nesse ano, as administrações, depois da primeira e segunda
marchas, poderão passar a terceira marcha, que é uma
marcha veloz, porém segura. Com essa velocidade, a administração
poderá entrar no quarto-ano, o último da administração,
com a quarta e até quinta marchas, chegando ao clímax.
Ocorre que se a terceira marcha não for passada no tempo correto,
a quarta marcha não pegará direito, e o carro poderá
desacelerar. Por isso mesmo, considero 2.003, o terceiro ano das administrações
municipais, como o mais importante. Trata-se do ciclo da maior visibilidade,
dos frutos que começam a ser colhidos, dos contatos mais estreitos
com as populações de regiões e bairros. Os munícipes,
a esta altura, já conhecem bem o prefeito e os secretários,
criando a intimidade para dizer, criticar, cobrar, exigir e até
elogiar.
JI - Que preocupações fundamentais, os prefeitos deverão
ter para melhorar sua performance?
GT - Em primeiro lugar, os prefeitos devem examinar sua pauta de promessas,
a partir da qual, precisam identificar os pontos positivos e negativos,
as coisas feitas, as coisas bem feitas e as mal feitas. Em segundo
lugar, as administrações, para melhorar suas performances,
deverão promover um ajuste fino: corrigir o que não
está dando certo; trocar secretários, quando isso for
necessário; alterar programas e projetos; adicionar novos aspectos
e ângulos; incorporar novos parceiros à administração.
E sempre ouvir a população. Os prefeitos devem colar
os ouvidos ao clamor e às expectativas do povo. É claro
que os estilos de cada perfil devem ser preservados. Ou seja, não
adiantará a um prefeito querer se transformar em populista,
se essa não é sua identidade. Da mesma forma, um prefeito
mais populista e informal cometerá erro se quiser pautar seus
gestos e condutas por um código formal. Quero dizer que cada
administrador precisa extrair o que de melhor existe em sua identidade.
O povo saberá distinguir o que está sendo feito com
espontaneidade e com artificialidade. O importante é cumprir
o programa apresentado ao eleitorado, ser rigoroso no cumprimento
da lei de responsabilidade fiscal, ser rigoroso com a punição
aos faltosos. Não se deve gastar mais do que se arrecada. E
os gastos devem ser informados à população. Nesse
sentido, o marketing institucional da Prefeitura poderá criar
uma estrutura informativa capaz de criar pontes mais estreitas entre
a comunidade e o governo municipal.
JI - O sr. falou em marketing da Prefeitura. O que é exatamente
este marketing e quais são seus ingredientes?
GT - O marketing não significa, como muitos podem imaginar,
aplicar uma camada de cosméticos sobre os atos administrativos
e programas da Prefeitura. Não. O marketing é um sistema
composto por quatro grandes eixos: a pesquisa, a comunicação,
a articulação e a mobilização da população.
Por meio de pesquisas constantes, tanto qualitativas como quantitativas,
o prefeito tomará conhecimento a respeito do ânimo da
população: suas expectativas, angústias, críticas,
pontos fortes e fracos da administração. Trata-se do
termômetro para avaliar o grau de febre ou normalidade do corpo
administrativo. Dentro dessa estratégia de sondagem permanente
dos anseios comunitários, é importante implantar um
sistema de ouvidoria, uma espécie de ombudsman da administração,
que tenha condições de auscultar as vozes da população
e encaminhar as queixas aos diversos órgãos da administração.
A partir daí, a equipe do Governo poderá aplicar novos
remédios, corrigir receitas antigas, administrar, enfim, as
febres do Governo. Usando a comunicação, a Prefeitura
diz o que está fazendo, prestando contas dos atos e projetos,
sendo transparente, dando visibilidade ao Governo. A comunicação
é um direito da comunidade e um dever da Prefeitura. Por isso,
a comunicação bem feita não é aquela laudatória,
envolvendo o prefeito de adjetivos, mas a que dá conta, de
maneira objetiva, das ações públicas. A articulação
é a perna pela qual a administração se integra
aos grupamentos sociais. Trata-se de um esforço da Prefeitura
para chamar a si as entidades organizadas da sociedade - sindicatos,
associações, federações, clubes etc. Esses
núcleos são importantes porque geram ondas de influência
na comunidade. Dialogar com eles, fazer projetos em parceria, criar
intercâmbio de idéias, tudo isso é importante
para aproximar a administração das comunidades locais.
Por último, a mobilização é o esforço
de energização da comunidade, por meio de um programa
de eventos de natureza cultural e associativa. Trata-se de despertar
a comunidade, fazendo-a participar mais ativamente da vida administrativa.
O planejamento do marketing municipal deve garantir a operação
de ações nesses quatro eixos.
JI - Como trabalhar esses eixos no percurso da administração
municipal?
GT - Antes de mais nada, é preciso dar um ordenamento aos quatros
anos da administração, de forma que, cada semestre do
ano possa contemplar determinadas metas. Quero dizer que é
preciso planejar o ciclo de vida da administração municipal.
No marketing, todo produto, todo conceito, todo programa tem um ciclo
de vida. Há cinco fases no planejamento do ciclo de vida da
administração: a fase do lançamento da administração,
o período de crescimento, o momento de amadurecimento, a fase
de consolidação e clímax e a fase do declínio.
Cada fase deve conter metas e ações específicas,
sejam novas ou de continuidade, de forma que a população
vá percebendo o aperfeiçoamento e o progresso da gestão.
O importante é criar sempre, é gerar fatos, estabelecer
programas novos, renovar métodos, passando-se a sensação
de que a administração é um continuum de coisas
boas, novas, originais, revolucionárias. Deve-se ter cuidado
com a dormência, a sonolência, a mesmice das administrações.
A comunidade deve sentir orgulho do trabalho municipal, sentir que
a administração está próxima a ela. Por
isso, deve-se evitar que a fase do declínio ocorra. Um bom
planejamento energizará todos os eixos, fazendo com que as
comunidades sejam mobilizadas, estabelecendo-se parcerias com as organizações
não governamentais, lançando-se novas idéias,
abrindo-se as atenções, ligando-se as antenas para captar
os sentimentos da população.
JI - A preocupação com o marketing da administração
deve sensibilizar todos os prefeitos ou apenas prefeitos dos grandes
municípios?
GT - É claro que o marketing da administração
municipal deve integrar as ações de municípios
de todos os tamanhos. Nos municípios pequenos e médios,
as ações de marketing têm maior impacto pela possibilidade
de serem mais visíveis e próximas. Nos grandes municípios,
os desafios são maiores. Ocorre que os grandes municípios
possuem estruturas mais pesadas, mais lentas e menos flexíveis.
Por isso mesmo, podem cair na mesmice, entrando em sono profundo.
Geralmente, o marketing nos grandes municípios é realizado
por agências de publicidade, que olham muito para o eixo da
comunicação (campanhas publicitárias), esquecendo
a visão estratégica, que contempla as pesquisas periódicas,
a articulação, a mobilização de massas
etc. Ou seja, os publicitários precisam entender que marketing
não é apenas publicidade. Publicidade é uma ponta
da comunicação, que, por sua vez, é apenas um
dos eixos do marketing municipal. Por isso, a idéia mais correta
é a adoção de um programa de marketing, a partir
de consultorias estratégicas, que poderão montar planos
mais abrangentes, a serem operados por agências locais. Ou seja,
urge sair das rotinas publicitárias e montar esquemas mais
profissionais, mais abrangentes, mais voltados para os quatro grandes
eixos do marketing.
JI - O que é ser um bom prefeito?
GT - Primeiro, um bom prefeito é aquele que procura cumprir
rigorosamente os compromissos assumidos com a comunidade. Segundo,
que esteja sempre disposto a ouvir, a mediar conflitos, a agir mais
e falar menos, a trabalhar incansavelmente, a não colocar sua
consciência a serviço de negócios escusos. Terceiro,
o bom prefeito terá sempre uma solução para os
problemas. Não poderá tergiversar, inventar desculpas.
Deve ser verdadeiro, inclusive no reconhecimento de que pode errar.
Precisa conhecer muito os espaços municipais, os problemas
dos bairros, as aflições da comunidade. Precisa ter
uma razoável noção de prioridades, de destaques
e ênfases. Jamais trair o povo. Ser sincero com seu sonho. O
povo saberá distinguir os homens leais, sinceros, honestos,
éticos, bem intencionados, dos oportunistas e corruptos.
JI - Qual o papel das Câmaras Municipais nesse processo?
GT - As Câmaras Municipais devem ser os ouvidos e os olhos da
comunidade. Devem estar atentas aos clamores das populações.
Corrigir o que há de errado no cipoal legislativo, fazer leis
que sejam úteis e necessárias, sempre considerando o
efetivo bem comum e não interesses menores de grupos e pessoas.
As Câmaras devem ajudar o Executivo e combatê-lo quando
ele sair da linha certa, do caminho mais justo.
JI - A população paulista é mais exigente que
a de outros Estados no que diz respeito à administração
pública?
GT - São Paulo ainda é o coração do Brasil.
Aqui se concentram as maiores classes médias, os maiores contingentes
periféricos de pobreza, os maiores sindicatos, o maior número
de associações, os maiores núcleos de trabalhadores,
o maior poder industrial do Brasil. Logicamente, é de São
Paulo o maior poder crítico do Brasil. Costumo dizer que o
voto está cada vez mais saindo do coração para
subir à cabeça, no reconhecimento de que cresce a racionalidade
em nosso país. Ora, é em São Paulo que distingo
o maior poder racional. Logo, é aqui que se concentram as populações
mais críticas, mais exigentes, mais racionais. Por isso mesmo,
os prefeitos precisam não se descuidar de suas funções.
Se errarem, pagarão seus erros na boca das urnas.
JI - Que recomendações o sr. faz aos prefeitos que desejam
melhorar os resultados de sua administração e se habilitar
à reeleição?
GT - Fazer um check-up geral da administração para avaliar
pontos fortes e fracos da administração; trocar secretários,
se for o caso; implantar novos programas ou ajustar programas já
implantados; redefinir situações e métodos, a
partir das avaliações efetuadas; contemplar as grandes
prioridades e não se deter em detalhes menores; recompor os
quadros, energizando-os, livrando-os da doença da mesmice,
por meio de um programa de ativação e animação
dos corpos administrativos; escolher pontos-focais para concluir a
administração, evitando o efeito "mosaicos diferentes
na parede"( quando se tem uma parede toda feita com mosaicos
diferentes, não se sabe qual a cor predominante). E, claro,
implantar, neste ano de 2.003, um sólido planejamento de marketing
para a administração municipal.
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