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A GUERRA DO VOTO
Revista Comunicação Empresarial - nº
26 - 1º trimestre de 1998
Empresas e empresários devem estar conscientes da possibilidade
de participar ativamente da campanha eleitoral ao pleito de 4 de
outubro
No próximo 4 de outubro, perto de 105 milhões de
eleitores brasileiros irão às urnas para escolher
o presidente da República, 513 deputados federais, 1.045
deputados estaduais, 27 senadores e 27 governadores. Os números
superlativos do pleito denotam um formidável envolvimento
da sociedade no processo eleitoral, por si só um evento saudável
para a Nação e para a cidadania.
Daqui até outubro, especialmente a partir da oficialização
das candidaturas nas convenções partidárias,
estará aberta a guerra pelo voto. Uma sucessão de
batalhas, aliás, que o gênio político de Winston
Churchill (1874-1965) assim avaliou:
- A política é quase tão excitante como a
guerra, e não menos perigosa. Na guerra você só
pode ser morto uma vez, na política, diversas vezes.
O ex-primeiro ministro britânico sabia do que falava. Entretanto,
nos embates políticos que enfrentou, certamente não
terá sofrido um patrulhamento tão grande quanto o
que ocorre em países de democracia mais recente, especialmente
quando o assunto em pauta é o financiamento das campanhas
eleitorais. Neste caso, e no que diz respeito à participação
das organizações empresariais no processo político,
subsiste um medo pânico de morrer mais de uma vez....
O cidadão ou o militante partidário estarão,
em tese, sempre dispostos a trabalhar e angariar fundos para as
campanhas de seus candidatos e partidos. E as empresas, terão
essa mesma disposição? Estarão preparadas para
abraçar uma causa ou uma plataforma política, ou mesmo
um candidato específico, sem necessariamente correr o risco
de ver arranhadas sua marca e sua imagem institucional?
Em países como o Brasil, em cuja história política
abundam exemplos pouco edificantes e irregularidades de toda ordem,
empresários e organizações empresariais tendem
a pensar dúzias de vezes antes de vincular sua marca e imagem
política a uma campanha eleitoral. Graças ao paulatino
fortalecimento da cidadania - e ao sentido pedagógico embutido
no exercício periódico do voto -, esse quadro, ao
que tudo indica, está mudando. E para melhor. Cidadãos
tendem a votar com mais sabedoria e entidades empresariais começam
a fazer valer sua responsabilidade social incursionando também
na seara política. Tanto uns como outros, pessoas físicas
e jurídicas, exercem, em última análise, um
direito próprio dos cidadãos.
O jornalista Gaudêncio Torquato, professor titular da Escola
de Comunicações e Artes da Universidade de São
Paulo, há muito acompanha com atenção o processo
eleitoral brasileiro e, nos últimos anos, vem se dedicando
também a prestar consultorias na área de marketing
político. Em depoimento a Comunicação Empresarial,
cujos principais trechos se publicam a seguir, Torquato analisa
o papel que as empresas - como entes sociais que são - podem
e devem desempenhar na campanha eleitoral que se avizinha. (Luiz
Egyto)
Ética e maturidade
"Nos últimos dez a quinze anos, a sociedade brasileira
tem avançado bastante no campo dos costumes e, ao mesmo tempo,
adicionado novos valores ao processo decisório. Essas mudanças
contribuem para um evidente ganho de racionalidade, isto é,
a sociedade está se tornando mais consciente e mesmo os segmentos
chamados periféricos estão decidindo de maneira mais
lógica, acompanhando mais atentamente o quadro político
e social. Nesse contexto, o voto cada vez mais deixa de ser uma
decisão por emoção para se transformar em uma
decisão por razão.
"Contribui para isso o poder de capitalização
da imprensa e dos demais meios de comunicação, que
são capazes de levar os fenômenos políticos
até a margem da sociedade - sobretudo na divulgação
permanente dos escândalos, do papel e do desempenho dos políticos,
além das denúncias a respeito da ação
eventualmente irregular dos governantes. Há, de certa forma,
uma grande lupa da mídia sobre a administração
pública e privada no país, e todo esse caudal de denúncias
acaba por criar na sociedade uma vacina ética".
Cidadania fortalecida
"Não digo que tenhamos chegado ainda à cidadania
plena porque o conceito de cidadania, na minha visão, daria
ao cidadão amplos direitos individuais e sociais, como o
direito à habitação, à saúde,
à segurança, à educação e ao
trabalho. Uma parte significativa da população brasileira
ainda está marginalizada e impedida de exercer seus direitos.
Mas o processo da racionalidade ora em curso tem o dom de abrir
a consciência social no sentido de ampliar o grau de cidadania.
Nós estamos realmente crescendo nesse ponto.
"A mudança social, se de um lado permite maior racionalidade,
de outro também provoca uma mudança política,
ou seja, os nossos políticos, mesmo com as críticas
na imprensa, estão sendo mais cuidadosos na sua missão.
Os jornais, por exemplo, estampam fotos na primeira página
de deputados que gazeteiam as sessões legislativas, denunciando
cenas em que parlamentares ou membros do Executivo se desviam de
sua missão.
"Há uma mudança geral na sociedade, cujos valores
fundamentais apontam para maior conscientização do
cidadão em torno da política e, conseqüentemente,
maior participação. No campo político, a tendência
que se apresenta como mais evidente é a de um certo abandono
do que se chama de macropolítica - a política generalista
e abrangente, a política dos grandes temas e da globalização.
Em contraponto, expande-se a micropolítica, aquela voltada
para os interesses imediatos e emergentes do cidadão.
"As últimas eleições mostraram que os
eleitores votaram em sua maior parte naqueles candidatos que apresentaram
propostas relacionadas diretamente ao seu bolso e ao seu cotidiano.
Isso ocorre porque o cidadão quer votar em um candidato que
se preocupe com sua rua, com seu bairro, com sua região.
É a regionalização do voto: os deputados federais
ou estaduais, que tinham votação em toda a área
geográfica de seus Estados, hoje estão repartindo
suas áreas de influência eleitoral. Essa maior participação
e conscientização reforçam o conceito de cidadania"
Função social
"O cenário de uma certa forma também tem influenciado
o comportamento e os valores do chamado universo organizacional.
As organizações privadas e públicas perceberam
que não podem ficar alheias ao processo político.
A política passou a fazer parte do dia-a-dia das organizações,
fundamentalmente pelo fato de que elas também são
entes políticos. As empresas são entes políticos
porque exercem (além das suas atividades industriais, comerciais
e civis) uma função social - ao darem empregos e ao
procurarem fazer produtos ou serviços de qualidade. A rigor,
todas as suas ações mexem com o comportamento do consumidor.
Por isso, as organizações não podem ficar alheias
ao processo político, sob pena de se transformarem em ilhas
retrógradas dentro de uma sociedade em transformação.
"Nos Estados Unidos, as empresas exercem abertamente o lobby
- que lá é uma instituição legalizada.
Os lobistas de empresas privadas se postam nos corredores do Congresso
para defender abertamente seus interesses. Isso é legítimo,
pois a empresa é um ente social como os outros e a organização
pública ou privada também faz parte da comunidade.
É melhor lutar por um interesse de maneira franca do que
defendê-lo de maneira escondida, camuflada."
Combater as mazelas
"No Brasil, contam-se entre as mazelas da política
o clientelismo, o fisiologismo, o apadrinhamento, o clanismo, o
grupismo, o mandonismo etc. São fenômenos que visivelmente
estão perdendo força, mas continuam ainda impregnados
no tecido político. E há empresas que se amparam em
algumas dessas mazelas para ampliar os seus territórios.
Como isso se dá? A empresa, intestinamente, ajuda um político
e este, de maneira não muito clara, ajuda aquela organização
tentando abrir possibilidades de um contrato junto ao governo ou
apresentando projetos de lei que a beneficiem de uma forma direta
ou indireta.
"Essa troca de favores, infelizmente, ainda existe. Apesar
dos avanços havidos, subsiste o contrapeso das mazelas políticas,
utilizadas por pessoas que insistem em fazer a intermediação
dos negócios financeiros por meio da atividade política.
Nesse caso, a política é usada pelas organizações
como base da alavancagem negocial."
Bandeiras abertas
"As empresas e instituições privadas e públicas
devem assumir seu papel na democracia representativa. Da mesma forma
que os segmentos organizados da sociedade, como a indústria,
comércio, o setor de serviços, além das minorias
étnicas, as mulheres, os ecologistas, os negros, os homossexuais
etc., todos devem participar do processo político ajudando
a eleger aqueles candidatos que se comprometem com suas bandeiras,
como a redução do custo Brasil, a reforma do sistema
tributário e outras demandas. Evidentemente não se
está falando aqui em corrupção, em negócios
escusos, mas de bandeiras de cunho social que possam refletir os
interesses de setores da atividade econômica. Se a indústria,
o comércio e a agricultura têm problemas sérios
com os juros, com os critérios de financiamento, com as isenções
fiscais e com a política de exportação e importação,
tais demandas devem ser colocadas de modo aberto no âmbito
da política. E devem apoiar os candidatos ou partidos que
se comprometam com as suas propostas, pois isso é um direito
da cidadania em uma sociedade participativa."
Garantias legais
"Nesse novo cenário, as empresas precisam abandonar
sua postura tradicional de recolhimento e assumir uma atitude mais
ativa. 'Eu faço parte do processo, pago impostos e tenho
direito a participar da política', deveria dizer o empresário.
"Do ponto de vista de doações e contribuições
para campanhas eleitorais, existem as limitações explicitadas
na Lei 9.504/97, que estabelece as normas para as próximas
eleições. Ali está dito, no artigo 23, que
a partir do registro dos comitês financeiros das candidaturas,
pessoas físicas e jurídicas poderão fazer doações
em dinheiro, ou estimáveis em dinheiro, para as campanhas
eleitorais. As doações e contribuições
ficam limitadas, no caso de pessoa física, a 10% dos rendimentos
brutos auferidos no ano anterior à eleição;
no caso de pessoa jurídica, a 2% da receita operacional bruta
do ano anterior ao pleito.
"A imprensa contribuiu muito para a abertura e consolidação
do conceito de cidadania, mas, em alguns casos, ela própria
chega a atrapalhar. Por exemplo: pelo medo de participar diretamente
de uma campanha eleitoral, darem sua contribuição
a um candidato e depois serem "denunciadas", muitas empresas
preferem fazer doações às escondidas. Muitas
vezes, existe um caixa dois nas campanhas, que funcionam como um
mecanismo para evitar que as empresas sejam "denunciadas",
apesar de legalmente ser possível sua contribuição.
"É preciso entender que a empresa pode e deve participar
da política. Mas será preciso fazer uma campanha de
esclarecimento - inclusive junto à mídia - para mostrar
que fazer doação para uma campanha não tem
nada de imoral, até porque é legal."
Organização social
"Há organizações empresariais modernas
que trabalham a política com transparência, querem
contribuir porque estão cobertas do ponto de vista legal,
mas acabam sendo prejudicadas por outras que comprometem o tecido
organizacional porque trabalham apenas de forma intestina. Nesse
sentido, os grupos sociais organizados foram mais rápidos
e ágeis do que os grupos empresariais, isto é, a sociedade
andou mais à frente que as empresas. É só reparar
na organicidade em movimentos sociais como os dos sem-terra, dos
profissionais liberais, dos advogados, dos engenheiros, dos médicos,
das mulheres etc.
"Para acelerar as mudanças, em vista da campanha eleitoral
que se aproxima, a empresa poderia convidar políticos a visitar
suas sedes, seus campos de trabalho, suas plantas industriais. É
preciso que o político vá ao chão de fábrica
para ver como as máquinas funcionam, como os trabalhadores
trabalham e em que condições. A realidade empresarial
é muitas vezes distante dos políticos. Se eles recebem
empresários em seus gabinetes, por que também não
se deslocam até as organizações empresariais?
Esse é um ato que também faz parte da sua missão.
"A cada eleição damos um pequeno passo e, em
1998, o passo vai ser maior. Será uma eleição
atípica no contexto sócio-político brasileiro,
já que teremos um processo que prevê reeleição
para cargos executivos. Tudo indica que haverá, inclusive
por parte do setor organizacional, o maior interesse em participar.
Só assim as empresas poderão criar condições
melhores para exercitar seus direitos e desempenhar sua missão
junto aos governos, à sociedade e às regiões
em que operam."
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