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Especialista traça o cenário da disputa eleitoral
e aponta quem vai ganhar dinheiro com as campanhas deste ano.
Camilla Baeta
As campanhas das eleições deste ano devem movimentar
entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões. Só em Minas
Gerais, os números devem atingir a cifra de R$ 30 milhões
a R$ 40 milhões. A estimativa é de um dos mais conhecidos
consultores de marketing político do Brasil, o jornalista
Gaudêncio Torquato, que já comandou mais de 30 campanhas
eleitorais, entre elas para a presidência da República,
em 1989. Doutor em comunicação pela Universidade de
São Paulo (USP), onde também é professor, Torquato
é diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação,
em São Paulo, e escreve regularmente para vários jornais.
Para ele, os candidatos em 2002 darão mais ênfase
ao discurso, já que o eleitorado se cansou da "vulgarização
e da exacerbação emotiva das campanhas passadas".
É preciso que o candidato mostre conteúdo e capacidade
para resolver os velhos problemas do País, principalmente
na área social. Ao entrar numa campanha, o candidato precisa
traçar estratégias claras e precisas. É nessa
hora que surgem os profissionais de marketing político, que
já se movimentam nos batidores do poder para o início
do show, que são as eleições.
Nesta entrevista à Economia , Gaudêncio Torquato traça
o cenário da disputa entre os candidatos, mostrando a importância
dos profissionais de marketing e suas armas para ganhar esse jogo.
Economia
Para vencer uma eleição, é preciso fazer um
bom marketing político?
Gaudêncio Torquato
Em primeiro lugar, marketing não ganha campanha. Quem ganha
campanha é o candidato. O marketing ajuda o candidato ao
procurar seus pontos fortes e atenuar seus pontos fracos. O profissional
de marketing é importante na medida em que funciona como
um estrategista que define linhas de ação, orienta
a escolha do discurso, ajusta as linguagens, define padrões
de qualidade técnica, sugere iniciativas e até pondera
sobre o programa do candidato, os compromissos e ações
a serem empreendidas. O profissional de marketing precisa ser um
estrategista, um profissional com visão sistêmica de
todos os eixos de marketing. No entanto, não adianta um bom
marketing se o candidato é um boneco sem alma. Candidato
não é sabonete. Tem vida, sentimentos e emoção.
Portanto, muita coisa depende dele, de sua alma, de seu calor interno,
de sua identidade. O marketing há de absorver essas condições
para evitar transformar pessoas em produtos de gôndolas de
supermercado.
Economia
O Brasil é um celeiro de bons profissionais de
marketing político?
GT
O Brasil tem estado na linha de vanguarda do marketing político.
Essa posição se deve a uma profunda mudança
no interesse da sociedade. A crise de descrença no setor
político determina estudos, novos campos de interesse e reflexão.
A sociedade passou a acompanhar mais a atuação dos
políticos. A mídia, por sua vez, cobre com mais intensidade
os fatos políticos. As agências de publicidade oferecem
elementos de alta criatividade. Os profissionais aprimoram seus
conhecimentos. À objetividade do marketing político
norte-americano, adicionamos a quentura da cultura latino-americana,
os jingles alegres e emotivos, as letras criativas, as imagens cinematográficas,
belas paisagens, um discurso crítico denso, pesquisas de
boa qualidade e ajustes de linguagem bem feitos. Ou seja, o resultado
geral da campanha é de alto efeito cênico e de intensa
competitividade.
Economia
Quais são as principais armas de um profissional
de marketing numa campanha eleitoral?
GT
Capacidade e sensibilidade para captar, com muita propriedade,
as indicações das pesquisas, visão abrangente
de todos os eixos de uma campanha, não se atendo apenas aos
programas de TV, como costuma ocorrer com os publicitários
engajados nas campanhas; poder de influência sobre o candidato,
principalmente no que concerne ao foco do discurso; ter noção
adequada do timing de campanha, ou seja, das seguintes fases: lançamento
do candidato (junho), crescimento (julho), consolidação
(agosto/setembro), auge/clímax (final de setembro/semana
da eleição), declínio. Esse é o ciclo
de vida de uma campanha. Se o declínio ocorrer antes da semana
da eleição, não há quem sustente a posição
do candidato. E quando o vento sopra numa direção
de crescimento, por exemplo, não há força que
consiga deter o rumo do vento.
Economia
Quais são os setores que mais faturam no decorrer
das eleições?
GT
Os setores que mais ganham com as campanhas políticas são
as indústrias de papel e papelão, têxtil, eletroeletrônica,
alimentação, produtoras de rádio e TV, agências
de publicidade, telemarketing, materiais de construção,
móveis e decoração, locação de
imóveis, empresas de locação de espaços
de outdoors, aluguel de transportes, venda de combustível,
brindes e Economia informal (cabos eleitorais, distribuidores de
material etc.).
Economia
Quanto um marqueteiro do cacife de Nizan Guanaes, o preferido
do PSDB, cobraria por uma campanha?
GT
Os profissionais de marketing lidam com diversas posições
de custos. Primeiro cobram pelas operações de planejamento,
criação e operação. Nesse caso, os custos
englobam não apenas sua cota, mas os custos da equipe e de
equipamento. Em segundo lugar, pela coordenação de
campanha, com parte da equipe própria (deles) e parte da
equipe da região da campanha. Nesse caso, podem cobrar apenas
por seus serviços. Os cursos variam muito. Um profissional
de marketing de primeira linha poderá cobrar entre R$ 3 milhões
e R$ 5 milhões por uma campanha de governo de um estado grande.
As chamadas estrelas cobram muito mais. Há alguns que dividem
os custos: uma parte em dinheiro, outra parte em negócios
que serão feitos por sua agência, quando o candidato
já estiver no poder. Trata-se, no entanto, de um acerto de
risco. Ganhando, levará a conta. Perdendo, fica com uma boa
bolada.
Economia
Quanto se movimenta em dinheiro durante uma campanha eleitoral?
GT
Para se chegar ao eleitor, gasta-se uma média de R$ 12
a R$ 15. Para atingir 115 milhões de eleitores, a campanha
deve alocar entre R$ 1,3 bilhão e R$ 1,7 bilhão. Considerando-se
que há um PIB informal de campanha - pelos tubos do Caixa
2 - calcula-se que a campanha movimente muito mais. Os candidatos
vão apresentar números muito aquém das reais
demandas. É razoável supor que a campanha geral deste
ano movimente algo entre R$ 4 bilhões e 5 bilhões.
Uma campanha para governo de estado do Nordeste deve custar entre
R$ 20 milhões e R$ 25 milhões. Em estados pequenos,
entre R$ 7 milhões e R$ 10 milhões. Num estado como
São Paulo, entre R$ 60 milhões e R$ 70 milhões.
Em Minas Gerais, entre R$ 30 milhões e R$ 40 milhões.
Um deputado federal para se eleger, em um estado do Nordeste, gasta
entre R$ 4 a R$ 5 milhões. No Sudeste, cerca de R$ 6 e R$
7 milhões; no Norte e Centro-Oeste, uma quantia próxima
de R$ 3 milhões.
Economia
Na sua opinião, o que vai marcar a campanha deste
ano?
GT
A campanha deste ano, diferentemente de campanhas anteriores,
dará mais ênfase ao discurso. Isto é, o eleitorado
vai exigir mais substância que forma. A vulgarização
e a exacerbação emotiva de campanhas passadas prejudicaram
muito o conceito de marketing. Houve muita promessa mirabolante
sob a capa falsificada dos eleitos de computação gráfica.
Os ambientes foram tomados pela emoção e até
choro, mas as lágrimas de campanhas passadas não chocam
mais o eleitorado.
Economia
E qual é o perfil do candidato que o eleitor busca
atualmente?
GT
O eleitor está a procura de um candidato com as seguintes
qualidades: experiência, honestidade, vida limpa e passado
decente, assepsia, equilíbrio/ponderação, preparo,
coragem/determinação, autoridade (não confundir
com autoritarismo). Há uma saturação de perfis
antigos, que usam as esteiras da velha política.
Economia
O senhor acredita que o tema segurança dará
o tom dessa campanha?
GT
Os grandes temas da campanha serão: segurança -
o País está com medo e quer ouvir propostas sérias,
críveis e demonstráveis na área de segurança,
inclusão social - o real, a moeda, deu o que tinha de dar
e já esgotou seu potencial de voto. Cerca de 43 milhões
de brasileiros vivem na maior indigência, em estado de penúria.
Precisam ingressar no mercado de consumo e adquirir o passaporte
da cidadania. Por isso, os candidatos deverão apresentar
propostas concretas para absorver os excluídos. Deverão
apresentar propostas concretas para alavancar o emprego e ampliar
o número de postos de trabalho. A área social - reequipamento
da infra-estrutura social (saúde, educação,
saneamento básico) - deverá estar no foco do discurso.
Ou seja, o eleitor vai exigir conforto social e não apenas
o conforto da estabilidade econômica.
Economia
A pré-candidata à presidência e governadora
do Maranhão, Roseana Sarney (PFL), se transformou num "fenômeno"
em função da varinha de condão do publicitário
Nizan Guanaes. Com a saída dele da campanha, o senhor acredita
que ela consiga se manter entre os primeiros colocados?
GT
Roseana cresceu graças ao aparato televisivo. Haverá
um momento, porém, em que ela terá que provar que
tem competência, que fez a lição de casa, que
tem noção acurada e aprumada dos problemas brasileiros.
Se não demonstrar conhecimento, cairá nas pesquisas.
Se provar que fez a lição de casa, se consolidará
e até poderá aumentar uns pontinhos. Mais para a frente,
o eleitor vai cobrar conteúdo em função da
maior racionalidade e maior exigência da sociedade.
Economia
O que o senhor acredita ser preciso fazer para alavancar a popularidade
do pré-candidato José Serra, do PSDB?
GT
José Serra é bom de conteúdo, apesar da chatice
que o caracteriza. Parece uma pessoa sempre mal humorada, um professor
que puxa as orelhas dos alunos. Falta-lhe simpatia pessoal, condição
para gerar empatia. Seu calcanhar-de-aquiles será a dengue,
mas ele vai tentar desfazer esse imbróglio por meio dos genéricos,
da queda de braço que ganhou com os laboratórios,
e com o combate à aids.
Economia
E os outros pré-candidatos?
GT
Para o Lula (PT) conquistar o eleitorado não basta apertar
a tecla da emoção como diz que fará o seu guru
Duda Mendonça. O eleitorado ficou saturado de tanta promessa,
de tantos coraçõeszinhos voando pelos céus,
de tanta emoção fabricada. Se a campanha de Lula for
nesse tom, será um desastre, Ciro Gomes (PPS) é denso
e conceitual, mas, como peixe, morre pela boca. Anthony Garotinho
(PSB) passa a sensação de que ainda carece de maturidade.
É messiânico, mas tem agilidade e sabe se comunicar.
Itamar Franco (PMDB) é uma verdadeira incógnita, não
dando chances a se saber para onde vai.
Economia
O que atrapalha a pré-candidatura do governador de Minas?
GT
Itamar tem perfil de homem público honesto, mas é
muito zangado. O eleitor tem medo de que, da noite para o dia, ele
crie uma situação de instabilidade. Itamar precisa
dizer o que efetivamente quer. Ninguém deve negar a ele grandes
feitos ao País, a partir da criação do real.
Fosse menos raivoso, mais comedido, com mais equilíbrio na
linguagem e nos atos, poderia ser um candidato com ares de santidade. |
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