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RUMOR, RADIO-PEÃO, REDE INFORMAL E OS GARGALOS DA COMUNICAÇÃO
ORGANIZACIONAL
GAUDÊNCIO TORQUATO
A psicologia do rumor
Os rumores, o boato, a rádio peão, que integram as
redes informais, dentro das organizações, não
podem e não devem ser tratados sob a ótica do combate
ostensivo e contundente. Trata-se de uma expressão legítima
da comunidade e, como tal, merece uma análise séria
e profunda. Farei algumas considerações a respeito
do tema.
Começo lembrando que os ambientes organizacionais são
propícios ao desenvolvimento de rumores, provocados em função
da instabilidade e insegurança dos tempos de crise. Tais
fatores se originam em causas como a ameaça de demissão,
a perda de poder de níveis de direção, gerência
e chefias, as promoções de determinados chefes em
detrimento de seus pares, a nomeação de novos comandos,
a tensão gerada pelo fechamento de unidades, as expectativas
criadas nos momentos de aumento salarial ou por ocasião dos
períodos de negociação coletiva etc.
O próprio ambiente social e político conturbado, que
retrata uma moldura recessiva, com aumento das taxas de desemprego,
principalmente nas áreas urbanas dos grandes centros, determina
certos padrões de comportamento dos grupos organizacionais,
adensando as redes informais. Portanto, aos fatores endógenos
juntam-se aspectos exógenos, externos às empresas,
formando o ambiente ideal para o zumzumzum: alguém que ouviu
dizer que fulano disse ter ouvido de sicrano que, por sua vez, soube
as coisas por beltrano...e assim por diante.
O rumor atende a uma necessidade humana, que reúne as expectativas
e ansiedades. A pessoa quer saber o que está acontecendo
a seu redor ou até um pouco mais longe. Essa curiosidade
inata está na base de sua segurança. Quer dizer, sabendo
o que ocorre, a pessoa pode se equilibrar, harmonizar-se. Fica feliz
em saber que está salva, livre de ameaças. E quando
se informa que o perigo também está perto de si, procura,
por todos os meios, precaver-se. E melhor maneira para tanto é
buscando o escudo da informação.
Como se sabe, as pessoas agem e reagem de acordo com quatro mecanismos,
dois relacionados à conservação do indivíduo
(impulsos combativo e alimentar) e dois que se ligam à conservação
da espécie (impulsos sexual e paternal). Os primeiros levam
em conta o conjunto de necessidades básicas enfeixadas na
luta pela vida. Tudo que ameaça a pessoa – demissão,
falta de alimento, limitações materiais e condicionamentos
e conflitos psicológicos – leva-a a reagir por meio
de automatismos, que constituem os mecanismos que estão na
base das reações ou dos reflexos inatos. A insegurança
provocada pelo trabalho numa organização aciona freqüentemente
esses automatismos. O medo, a angústia, a depressão,
a coragem, o entusiasmo, a agressividade, a luta pelo poder, a dominação,
a luta por cargos e salários, a ameaça, o encorajamento
são alguns dos sentimentos e valores que acionam os mecanismos
inatos das pessoas. Essa é uma base psicológica para
explicar a teia de relações das redes informais, a
partir das operações que ocorrem nos centros nervosos
de cada pessoa.
A cadeia de grupinhos
E como se desenvolve a cadeia do rumor, o sistema de transmissão
da rádio-peão? O rumor se desenvolve nos elos de uma
cadeia sociológica de grupinhos, pequenos núcleos.
Uma pessoa se encontra com duas outras, e começa a conversar.
Desse núcleo inicial, saem as pessoas, que se encontram com
mais três ou quatro. Uma delas diz: “você sabe
o que está acontecendo? Puxa vida, está acontecendo
isso e aquilo, uma bomba... Então, é bom que a gente
fique atenta.” Do segundo grupo, saem as pessoas para iniciar
novas conversas com grupos de três ou mais pessoas. A partir
desses núcleos, vai se formando uma cadeia horizontalizada,
com fofocas de todos os lados. No oitavo grupo, a lagartixa já
está do tamanho de um jacaré.
O mecanismo, agora, é o da adição de novos
fatos. As pessoas vão preenchendo os espaços informativos
com as cargas emotivas, filtradas por seus interesses particulares
ou de seu grupo de referência. Ao lado do fator de acréscimo,
faz-se também a elipse, ou seja, o corte, a eliminação
de partes que não satisfazem o sistema cognitivo. A pessoa
vai cortando o que não interessa, deixando a história
na conformidade da recompensa que espera pela interpretação
dos fatos. Com elipses e acréscimos, a rádio-peão
transmite seus programas rotineiros, sem hora marcada, tendo como
interlocutores todos os colaboradores e empregados em condições
de ver, sentir e ouvir. O interesse é geral. Até os
níveis mais altos desejam saber que tipo de rumor ou mesmo
fofoca está acontecendo lá embaixo, no chão
de fábrica ou nas salas dos escritórios.
Os termos usados
A coisa funciona como uma espécie de telefone sem fio. Cada
pessoa vai jogando na cadeia comunitária seus sentimentos,
suas angustias, suas alegrias, suas frustrações, suas
raivas. Forma-se, assim, um denso acervo sentimental, codificado
e decodificado e reinterpretado diversas vezes por essa cadeia sociológica
de grupinhos. A verdade inicial sai da letra A e chega à
letra Z, passando por todo o alfabeto. Há um ditado que diz:
a verdade acaba, mas a história continua. Pois bem, com a
rádio-peão, a verdade vai se acabando logo nos primeiros
grupos, mas a história vai continuando até o último
dos grupos de uma organização. Esta é uma explicação
mais ou menos didática para mostrar o fluxo do rumor na organização.
O rumor assume, freqüentemente, o conceito de fofoca.
Fofoca tem mais um sentido depreciativo. Quando alguém usa
o termo, é porque o assunto já está se transformando
em questão menor, entrando no terreno da galhofa, da brincadeira.
O termo fofoca se aplica de maneira mais intensa às temáticas
envolvendo relações entre os gêneros masculino
e feminino, quem está saindo com quem etc. Resvala pelo lado
pessoal.
Os rumores organizacionais ou boatos tratam, como foi acentuado,
dos problemas que geram insegurança interna. E quanto ao
termo rádio-peão, vale a pena um esclarecimento. Este
termo surgiu dentro do ambiente industrial no ABC paulista, na esteira
dos movimentos sindicais. O rádio-peão é o
termo que mostra uma intrínseca relação entra
a peãozada e sua capacidade de se “antenar” com
a sociedade. É rádio no sentido de que realmente existe
uma emissora informal na organização, que se contrapõe
à radio formal, oficial, a rádio normativa, a rádio
dos memorandos, a emissora dos ofícios, das ordens, dos relatórios.
Trata-se do canal da peãozada, com uma audiência muito
maior, mais fiel e mais efetiva. Essa rádio nasceu e se desenvolveu
no bojo das intensas reivindicações trabalhistas dos
sindicatos do ABC Paulista. No movimento sindicalista, a partir
das décadas de 70 e começo dos anos 80, cresceu e
se fortaleceu o perfil de Lula, que comandava aquela massa. Aquilo
era uma imensa Torre de Babel efervescente, com discursos candentes,
a ditadura prendendo, os trabalhadores procurando uma luz, uma antena
com a sociedade. A rádio-peão se apresentou como uma
tuba de ressonância para responder à restrição
da locução determinada pela ditadura. Ou seja, o trabalhador
passava de ouvido para outro ouvido, como num cochicho, sua versão
para os fatos.
Contraponto ao oficialismo
Nesse sentido, a rádio-peão serviu como contraponto
para responder às grandes falas oficiais. Foi uma espécie
de grito preso na garganta, que se contrapunha ao fechamento, aos
anos de chumbo, à repressão, à boca fechada.
Sua importante tarefa era a de integrar os trabalhadores, unindo-os
em torno das bandeiras e propostas sindicais. A radio peão,
com sua força e eficácia, conseguiu a integração
do movimento dos trabalhadores, servindo aos objetivos das entidades
e, de alguma forma, sendo um grande palanque para as categorias
de trabalhadores. Obteve um desempenho extraordinário no
sentido de criar uma comunidade mais unida e solidária.
De lá para cá, o que se viu foi um esgarçamento
dos movimentos trabalhistas, com a repartição das
categorias pelas grandes Centrais sindicais, a partir da Força
Sindical e CUT e o arrefecimento ideológico-doutrinário.
É oportuno lembrar que o conflito clássico entre o
capital e trabalho deixou, há muito tempo, a esfera das ruas,
entrando no ambiente mais comportado da interlocução,
da negociação, nas casas do patronato e nos próprios
sindicatos e centrais. Numa época, as negociações
ocorriam nas mesas da FIESP, com Lula aparecendo como principal
interlocutor por parte dos trabalhadores. Havia, portanto, outro
patamar de negociação, ao contrário dos tempos
da Vila Euclides, quando a luta se dava nas ruas e nos estádios.
A interlocução ganhou foro mais fechado. Na verdade,
isso se deveu à própria evolução dos
conceitos de socialismo, liberalismo/capitalismo, social-democracia
etc.
Hoje, pode-se dizer que a concepção de rádio-peão
não se impregna do antigo estigma. Mas é claro que,
atualmente, esse tipo de veículo serve para extravasar os
sentimentos de angústia, frustração, insegurança,
coisas que jamais serão abolidas da qualidade humana. O canal
aberto dos trabalhadores continua a funcionar com outros parâmetros,
procurando, agora, mais equilibrar a comunidade. O termo equilibrar,
aqui, tem o sentido de promover catarse, ajustar, acertar os ponteiros
psicológicos das massas. Se não houvesse no Brasil,
radio-peão, futebol e cachaça (a esse conjunto, pode-se
acrescentar a paquera), a caldeira de pressão social já
teria explodido. As sociedades precisam garantir a existência
de suas estruturas de consolação. Futebol, rádio-
peão, cachaça e paquera estão por trás
do perfil do brasileiro cordial. Carregam a simbologia do grito
que as gargantas querem soltar para pacificar o coração
e azeitar a cabeça. Não houvesse essa válvula
de escape, a sociedade, a partir das massas desorganizadas estaria
voltando suas energias para acender fogueiras e tocar fogo em florestas
cultivadas por classes dos andares de cima.
Administração da rede informal
É importante saber lidar com os rumores na organização.
Os profissionais de Recursos Humanos e os comunicadores são
os mais diretamente ligados à administração
das redes informais nas organizações, onde se desenvolvem
os rumores e boatos. Para começar uma reflexão nesse
campo, dou a sugestão: todo esforço deve ser empreendido
para usar a rede informal a favor das políticas internas.
O combate à rede informal pela via ortodoxa pode se transformar
em bumerangue. Combater pela via ortodoxa significa tentativa de
reprimir, condenar, repreender funcionários, demitir etc.
O combate indireto, mais efetivo, leva em consideração
a realidade de uma rede informal, cujos fluxos podem e devem ser
utilizados para passar as informações corretas e do
interesse da empresa.
Trata-se de uma questão complexa e bastante interessante.
O setor de recursos humanos precisa considerar a importância
dos líderes informais na empresa. No campo da propagação
de idéias e “espalhamento de brasa”, tais lideranças
informais têm um poder de fogo maior do que as lideranças
formais. Portanto, vale o esforço para considerá-las
como elos importantes na cadeia de articulação da
rede de comunicação interna. Quando se trabalha apenas
com as chefias organizadas, sem considerar a teia de líderes
informais, a política ou o programa estará fadado
ao insucesso. Então, o que pode ser feito? Primeiro, identificar,
de maneira equilibrada e suave, sem barulho, as lideranças
informais. Segundo, procurar convencer tais lideranças, com
boa argumentação e objetividade, que as empresas têm
boa vontade para resolver todos os problemas gerados no ambiente
organizacional. Terceiro, argumentar que as soluções
exigem um tempo e um fluxo de prioridades,sem deixar de apresentar
as dificuldades que a organização está passando
e convocando os líderes informais a integrarem o esforço
para se encontrar a solução mais justa e adequada.
O pano de fundo de uma negociação com esse formato
é o de um mundo em crise em todos os campos do trabalho.
A tecnologia toma conta dos ambientes. Os postos de trabalho escasseiam.
O trabalhador, hoje, se vale de outros parâmetros ante a mudança
de paradigma no campo do trabalho. Por isso, o conceito de parceria
deve ser bem exposto. O insucesso da empresa será o insucesso
de cada um. Objetividade, argumentos racionais e sólidos,
uso de linguagem coloquial, aberta, sincera, interativa, capaz de
traduzir sentimentos reais. Dessa forma, o interlocutor de Recursos
Humanos poderá convencer as lideranças informais a
entrar no circuito da comunicação e, conseqüentemente,
diminuir ou até eliminar pontos de atrito e impactos de uma
agenda conflituosa.
A rede de secretárias
Há um sub-sistema que não pode ser deixado de lado
na administração da rede informal das organizações.
Trata-se do núcleo das secretárias. As secretárias
são os olhos, os ouvidos, a cabeça e o coração,
enfim, os sentimentos de uma organização. Elas traduzem
os discursos que fluem de todas as aéreas em todos os momentos.
Assemelham-se a um pulmão que oxigena o corpo. Se são
deixadas de lado, podem contaminar o corpo organizacional com sangue
sujo ou contaminado. Ou seja, com rumor pesado ou até fofoca
agigantada. As secretárias são canais importantes
de transmissão e recepção de informações.
Num dos meus livros - Cultura, Poder, Comunicação
e Imagem (Pioneira), faço esse destaque, ao formular as funções
da rede de secretárias. Elas têm um forte poder. É
preciso trabalhar bem com as secretárias, que simbolizam
o cartão de visitas de uma empresa. A maneira como uma secretária
atende um visitante carreia simpatia ou antipatia para a empresa.
Secretárias são como imã, que atraem as partes.
Ou como pólo negativo, que afasta pessoas.
Por isso, a secretária deve ser interpretada e usada como
canal de comunicação para captar fielmente o sentido
do discurso, as abordagens da linguagem, os eixos das falas, as
ênfases dos comunicados oficiais e procurar traduzir de maneira
muito objetiva e correta os sentimentos e desejos da empresa, de
seu setor e de seu chefe. Essa é a razão pela qual
o gerente ou diretor de RH deverá dar mais importância
à função da secretária como canal de
comunicação. Ele precisa ter a noção
de que uma empresa é feita por seres humanos que precisam
ser respeitados, ser ouvidos e que podem se transformar em excelentes
canais de comunicação, quando orientados e aperfeiçoados
nesse campo.
Pesquisa de Clima
Há um instrumento que também precisa ser inserido
na planilha do planejamento e administração das redes
informais. Trata-se da pesquisa de clima organizacional. Sobre esse
assunto, começo lembrando que ela é uma espécie
de mapa do segredo da empresa. A pesquisa de clima organizacional,
quando bem realizada, aferindo todos os segmentos de todas as áreas
e setores, com amostras significativas, exibe a realidade “sem
tirar nem por” da organização. É um espelho
que deveria ser usado periodicamente para que a empresa saiba onde
estão os gargalos, os tumores, as doenças e ameaças
ao corpo organizacional. Em termos médicos, podemos dizer
que se trata de uma tomografia feita com aparelhos muito avançados.
Coisas que a pesquisa revela: constatações feitas
por simples intuição são passíveis de
erro. Por exemplo: questões de comunicação.
Há uma tendência para se debitar à “falha
de comunicação, ausência de comunicação”
um apreciável conjunto de problemas organizacionais. As insatisfações,
angustias, relacionamento entre setores dependem de muitos fatores,
entre os quais a própria comunicação. Mas ela,
sozinha, não pode ser considerada o “bode expiatório”
das mazelas empresariais. Portanto, é bom olhar para as pesquisas
de clima organizacional e a verdade que apontam.
Cheguei a fazer pesquisas de clima organizacional em algumas empresas
e foi isso que constatei.Repito: parcela formidável dos problemas
de comunicação apontados não era de comunicação.
Era de gestão. Confunde-se comunicação com
gestão. Postura gerencial tem a ver com comunicação,
mas com uma área de comunicação que é
a comunicação gerencial. Por isso, o tratamento deve
ser feito por meio da ferramenta da educação, ou seja,
por meio de cursos específicos e não pela via da criação
de mais instrumentos de comunicação. Nos meus trabalhos,
tenho observado que os apontamentos, meios, recursos e formas de
comunicação são freqüentemente defasados.
Cada coisa no seu lugar
Há um gap entre o potencial dos meios e a realidade comunicativa
exibida. Ou seja, os meios não são utilizados em sua
plenitude. Muitos pertencem à categoria da comunicação
administrativa. Nesse caso, o problema dizia respeito, por exemplo,
à falta de clareza normativa, à indefinição
de metas e objetivos, aos estrangulamentos nos fluxos verticais
(descendentes/descendentes) e horizontais (entre chefias do mesmo
nível hierárquico) da comunicação. Por
isso, um alerta: é preciso esclarecer muito bem o que é
comunicação organizacional. A comunicação
organizacional não pode ser entendida apenas como comunicação
social, o conjunto de veículos de comunicação
coletiva, como jornais, revistas, Tv, rádio etc. Há
uma parcela formidável de comunicação, que
pertence ao grupo da comunicação administrativa (a
papelada, relatórios, folders, folhetos, bilhetes, cartas,
memorandos), além de outras formas que abrangem as comunicações
inter-pessoais, e, nesse caso, pertencem ao núcleo que chamo
de comunicação gerencial, onde multiplicam-se as encruzilhadas
e os estrangulamentos, a partir de uma questão central: a
retenção da informação pelos níveis
intermediários, que, receosos de perder poder, prendem as
informações, evitando passá-las para os níveis
inferiores.
Que as coisas fiquem bem claras. Cada tipo de comunicação
no seu devido lugar. Uma coisa é analisar, planejar e executar
formas de comunicação social, via canais clássicos
da comunicação coletiva; outra coisa é trabalhar
a comunicação administrativa, via materiais que implicam
produção de normas, instruções, ordens
etc; e a terceira coisa é trabalhar com a comunicação
gerencial. A visão correta sobre os limites de cada setor
propicia o encontro de caminhos e soluções. Há
apenas um imenso problema: o mercado ainda não entendeu isso.
Os comunicadores brasileiros são defasados de cultura comunicacional
sistêmica.
Cada grupamento especializado de comunicação, infelizmente,
pensa apenas nos produtos e nos espaços apreendidos em salas
de aulas de cursos defasados de comunicação. Relações
Públicas, relações institucionais/governamentais,
publicidade mercadológica, publicidade institucional, jornalismo,
jornalismo empresarial, assessoria de imprensa, endomarketing, editoração,
identidade visual, pesquisa, rádio, tv, Internet, Intranet,
redes informais, comunicação inter-pessoal e grupal,
constituem formas de comunicação que se unem e se
integram dentro do arco sistêmico da comunicação
organizacional. E este arco possui três grandes territórios:
comunicação social, comunicação administrativa
e comunicação gerencial. Não são departamentos
estanques. Ora, o mercado faz a divisão, as empresas contratam
especialistas de setores específicos, mas o principal profissional
– o profissional sistêmico, com visão generalista
e domínio de cada setor especializado – não
aparece nos organogramas, pois ainda não está disponível.
Há muito poucos no mercado.
Os profissionais de Recursos Humanos são muito esforçados
e têm histórias de sucesso. Infelizmente, não
possuem domínio amplo sobre os campos da comunicação.
Devagarinho, repetindo, repetindo, começo a perceber que
a minha toada em torno da comunicação organizacional
abre espaços para uma pequena floresta de idéias e
conceitos. Os trabalhos que tenho realizado, como consultor de comunicação
organizacional, trazem o selo da comunicação sistêmica.
Em suma, as pesquisas de clima organizacional devem abrigar questões
e perguntas que expressem as áreas que acabo de referir a
fim de apontarem a especificidade dos problemas a serem medidos.
Se não há compreensão adequada sobre o que
prospectar, o diagnóstico será passível de
vieses e distorções.
Novas ferramentas
Destaco, agora, a importância das novas ferramentas tecnológicas
na área da comunicação. A tecnologia facilitou
o processo de disseminação das informações,
tanto para dentro como para fora da empresa.
A tecnologia ajuda, quando bem usada, e desajuda, quando usada de
maneira burra. A Internet e as Intranets são ferramentas
de grande efeito, muito eficientes quando usadas de maneira racional.
O uso irracional ocorre quando serve para entupir as caixas de entrada
de informação dos usuários.
Pequenas regras básicas: é preciso definir o quê
comunicar, para quem comunicar, como usar a linguagem e, ainda,
como controlar as comunicações enviadas e recebidas.
O primeiro ciclo da Internet foi o da descoberta. As caixas se entupiram,
inclusive com vírus. Todo mundo entupindo todo mundo, como
se fosse uma batalha onde o vitorioso será aquele que mais
e-mails transmitir. É como se todos estivessem numa batalha
e recebessem uma arma moderníssima. No campo de batalha,
todo mundo atirando em todo mundo. Ora, quem não sabe usar
a arma de maneira adequada, acaba morrendo. É preciso saber
lubrificar a arma, conhecer seu potencial, distinguir o inimigo
etc.
Agora, é que a Internet está entrando no segundo tempo.Estamos
começando a abrir o ciclo de maior racionalidade para essa
ferramenta tecnológica. Nesse caso, o uso racional vai selecionar
melhor o quê, quem, como, onde e porque comunicar. A empresa
não pode medir sua comunicação por quilo. Algumas
chegam a produzir entre 5 a 10 quilos, e o receptor/consumidor não
tem condições (tempo, interesse etc) em consumir um
quilo por dia. Se as pessoas imprimissem o que recebem, o peso seria
grande.
Ação conjunta
Por último, destaco a necessidade de se trabalhar a comunicação
dentro de uma visão sistêmica. RH e Comunicação
devem procurar parceirizar suas ações, principalmente
em determinados campos do endomarketing.
Comunicação é um sistema-meio, não é
um fim em si mesma. Trata-se de uma ferramenta que todas as áreas
empresariais deveriam usar para maximizar os seus recursos e aperfeiçoar
suas técnicas. Se é assim, a comunicação
precisa servir a todas as áreas.É suporte, é
apoio, é meio, é veículo, é modelo de
emissão e recepção. Há áreas
que têm afinidade maior com o sistema de comunicação,
por exemplo, RH, que trata do ser humano e com o ser humano. A comunicação
é inerente ao conceito de Recursos Humanos. Quando duas pessoas
interagem, estão promovendo uma relação humana,
que é, fundamentalmente, uma relação de comunicação.
Portanto, quem administra conceitos como comportamentos, atitudes,
expectativas, valores, princípios, virtude, qualidades, está
administrando também fatores de comunicação.
A comunicação é uma ferramenta fundamental
para o bom desempenho dos Recursos Humanos.
Sob o prisma de subordinação, entendo que a comunicação
deve estar atrelada ao top superior da empresa. Todas as áreas
precisam da comunicação. Logo, o ferramental para
atender os objetivos de cada área deve estar sempre disponível
e não sujeito aos mandos de um departamento de linha. Quanto
mais em cima, perto do comando central, mais eficaz será
o sistema de comunicação. Nesse caso, os conflitos
rotineiros deixarão de ocorrer ou irão diminuir.
São Paulo, 24 de julho de 2003.
Gaudêncio Torquato é um dos pioneiros da Comunicação
Organizacional e do Marketing Político, sendo um dos maiores
especialistas brasileiros dessas áreas, tendo escrito as
primeiras obras sobre o tema. Professor titular da Universidade
de São Paulo, livre-docente e doutor em comunicação,
Gaudêncio Torquato dirige a GT Marketing e Comunicação,
empresa de consultoria nas áreas de comunicação
organizacional e marketing político. Como consultor de comunicação
organizacional, presta serviços para empresas privadas, públicas
e associações, realizando diagnósticos de comunicação
interna e externa, planos diretores de comunicação,
desenvolvendo palestras e cursos para formação e reciclagem
de quadros. Recebeu o Título de Personalidade de Comunicação
2003(Mega-Brasil).
Tem sete livros publicados: Jornalismo Empresarial - teoria e prática
(1984 - Editora Summus); Marketing Político e Governamental
(1985 - Editora Summus); Comunicação Empresarial/Comunicação
Institucional (1986 – Editora Summus); Periodismo Empresarial
(Editorial Mendez - Lima/Peru); Cultura, Poder, Comunicação
e Imagem - Fundamentos da Nova Empresa (1992 - Editora Pioneira).
Tratado de Comunicação Organizacional e Política
(2002 – Editora Pioneira-Thomson Learning). Sub-títulos:
Comunicação empresarial e pública; marketing
e comunicação de governos estaduais, prefeituras e
associações; marketing político e eleitoral;
assessoria de imprensa; nome e marca; marketing pessoal e estratégias
de guerra. Trata-se da obra mais abrangente e completa do autor.
O mais recente livro é A Velha Era do Novo – Visão
Sociopolítica do Brasil (GT Marketing e Comunicação
- 2002), que procura fazer uma radiografia social e política
do país na última década.
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