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CONTEÚDO E FORMA
Essa última
parte é sobre o discurso do candidato, como ele deve apresentar
o discurso e como deve ser sua linguagem. Lembremos que o candidato
deve possuir forte identidade. A identidade, como já salientei,
é formada pela história do candidato, seus compromissos,
seu pensamento. O discurso compõe-se de duas partes, a parte
semântica, que diz respeito à substância, e a parte
estética, composta pela embalagem. O discurso estético
e o discurso semântico formam a identidade. A linguagem não
deve ser diferente da identidade; o que significa isso? A pessoa que
é muito séria não deve apresentar-se de maneira
muito sorridente. Se é bem comportada, deve se apresentar assim.
Imagem e identidade precisam caminhar juntas. A identidade é
o eixo da pessoa e a imagem é a sombra que ela projeta. Para
compreender melhor o conceito: ao meio dia, exposta ao sol, uma pessoa
tem a sombra sob os pés. Nesse caso, é como imagem e
identidade estivessem justapostas. Quando o sol vai declinando no
horizonte, por volta das 5 horas da tarde, a sombra da pessoa se projeta
lá adiante. Nesse caso, a imagem está bem distante do
corpo dela, que representa a identidade. Quanto mais desce o sol,
mais a imagem vai se distanciando do corpo. Ou seja, a imagem fica
muito distante da identidade. Quando a distância é muito
grande, há uma deformação do corpo, uma descaracterização
da identidade. O ideal seria que a sombra estivesse mais próxima
do corpo, a imagem estivesse mais próxima da identidade. O
eleitor percebe a distorção entre o que um candidato
é e o que pretende mostrar.
Os discursos
também devem combinar. O discurso estético diz respeito
ao modo de se vestir, a maneira de falar - você pode falar olhando
para os olhos, olhando para o chão, olhando para cima - quando
você vai falar em televisão, você tem que olhar
no olho do eleitor, olhar para o centro da televisão. A maneira
de vestir: se você se veste com uma camisa esburacada, camisa
suja, estará passando o conceito de desleixado. A pessoa deve
se vestir de acordo com o ambiente, não deve se empetecar demais
em ambiente rústico; isso provocará um choque. A maneira
de falar, expressar-se com as mãos, com a boca, com a sobrancelha,
com os olhos, quando está no palanque, causa efeitos mais ou
menos impactantes. Discursando de maneira rígida, fria, sem
gesticular, parecendo um boneco, o candidato não conseguirá
embalar o eleitor. Os braços estimulam a aproximação,
promovem um contato. É importante falar com naturalidade, demonstrando
conhecimento dos problemas, apontando soluções, criando
emoção, expressando sentimentos. As cores são
importantes para a roupa. É aconselhável usar roupas
que combinem com o visual dos materiais de propaganda. Quando for
para a televisão, evitar camisas com riscos, que provocam reverberação,
manchas. Deve-se usar cores de tom pastel e procurar símbolos
e ícones que ajudem a identificar a campanha (o V da vitória,
gesto de mãos apertando-se, gesto de braços acolhendo
as pessoas). Essa é a parte do discurso estético. O
discurso semântico vai conter as idéias, os atributos
do candidato, os valores pessoais, os princípios políticos,
os programas e compromissos. O discurso semântico inclui também
as ações desenvolvidas ao longo da história do
candidato, sua vida, o que já fez.
O discurso
político comporta ainda metáforas de guerra, simbolismos
de guerra: “eu vou ganhar, eu vou lutar, nós vamos à
vitória, vamos derrotar”, são termos da guerra
na política. A psicologia mostra que essas metáforas
estão relacionadas aos quatro grandes instintos do ser humano.
O primeiro instinto é o instinto combativo, relacionado à
sobrevivência do indivíduo. Nas cavernas, por exemplo,
na pré-história, os nossos ancestrais, com aqueles imensos
bastões, atacavam ou se defendiam dos inimigos que queriam
ocupar seu lugar. Defendiam-se ou atacavam para não morrer.
O segundo instinto, também ligado à preservação
do indivíduo, é o instinto alimentar. Para sobreviver,
a pessoa defende o estômago procurando o alimento para poder
se preservar. Esses dois instintos estão presentes no discurso
político: provoca sucesso o discurso voltado para o estômago
do eleitor, ao bolso, à saúde - sem saúde ele
não vive, com dinheiro no bolso ele vive melhor, ele come.
São coisas fundamentais que o candidato não deve esquecer.
O discurso para o eleitor tem de estar ligado fortemente ao instinto
de sobrevivência do individuo, que cobre as questões
de saúde, de alimentação, de habitação.
Tudo aquilo que diz respeito à melhoria das condições
de vida dos indivíduos. O terceiro instinto é o sexual,
ligado à preservação da espécie. Daí
o discurso sobre a família, os filhos, a relação
homem-mulher. A idéia do carinho, de companhia, de solidariedade,
de amor às pessoas é o eixo do instinto paternal, que
é o quarto instinto. Esses valores se encontram presentes no
discurso religioso; os padres, os pastores, trabalham muito com o
instinto paternal. As pessoas querem ver no candidato um pai - “aquele
candidato é um pai pra mim, ele tem autoridade, ele vai nos
ajudar muito, ele vai me dar casa, ele vai me dar saúde, ele
vai me dar condições de uma vida melhor, ele é
um pai”.
São
fundamentos psicológicos. O discurso político se ampara
nesses quatro grandes instintos, ligados à conservação
do indivíduo e à preservação da espécie.
É imprescindível ajustar o discurso ao clima da conjuntura,
ao desemprego, por exemplo. Há que se ter muita afinidade com
as forças religiosas, místicas; o eleitorado respeita
e tem veneração pelo eixo místico. Candidatos
de igrejas evangélicas costumam recitar salmos, do tipo: “Deus
é o meu pastor e nada me faltará”, “se Deus
está comigo, quem estará contra mim?”. Valores
que o candidato há de respeitar: participação
- a sociedade está querendo participar do processo político;
cobrança - o eleitor quer fiscalizar a vida e as promessas;
autonomia - a capacidade de um candidato de decidir sobre seus atos,
seus fins, a capacidade de escolher os meios para atingir os fins;
juventude - conciliar uma certa jovialidade com a experiência
do adulto, não passar idéia de muito impetuoso nem muito
velho; cidadania - é um conceito muito importante hoje. Cada
vez mais o cidadão quer reforçar a sua cidadania. A
cidadania se conquista com emprego, com saúde, com melhores
condições de vida, com segurança, com liberdade,
com conquistas dos direitos individuais e sociais. Repito: os valores
estão presentes dentro do contexto sócio-político:
participação, fiscalização, cobrança,
mudanças no sentido de inovação, simplicidade,
mais ação menos palavras, autonomia, juventude, experiência,
cidadania. |
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