TEXTOS E CONTEÚDOS PRODUZIDOS PELO
PROF. GAUDÊNCIO TORQUATO
CONTEÚDO E FORMA

          Essa última parte é sobre o discurso do candidato, como ele deve apresentar o discurso e como deve ser sua linguagem. Lembremos que o candidato deve possuir forte identidade. A identidade, como já salientei, é formada pela história do candidato, seus compromissos, seu pensamento. O discurso compõe-se de duas partes, a parte semântica, que diz respeito à substância, e a parte estética, composta pela embalagem. O discurso estético e o discurso semântico formam a identidade. A linguagem não deve ser diferente da identidade; o que significa isso? A pessoa que é muito séria não deve apresentar-se de maneira muito sorridente. Se é bem comportada, deve se apresentar assim. Imagem e identidade precisam caminhar juntas. A identidade é o eixo da pessoa e a imagem é a sombra que ela projeta. Para compreender melhor o conceito: ao meio dia, exposta ao sol, uma pessoa tem a sombra sob os pés. Nesse caso, é como imagem e identidade estivessem justapostas. Quando o sol vai declinando no horizonte, por volta das 5 horas da tarde, a sombra da pessoa se projeta lá adiante. Nesse caso, a imagem está bem distante do corpo dela, que representa a identidade. Quanto mais desce o sol, mais a imagem vai se distanciando do corpo. Ou seja, a imagem fica muito distante da identidade. Quando a distância é muito grande, há uma deformação do corpo, uma descaracterização da identidade. O ideal seria que a sombra estivesse mais próxima do corpo, a imagem estivesse mais próxima da identidade. O eleitor percebe a distorção entre o que um candidato é e o que pretende mostrar.
          Os discursos também devem combinar. O discurso estético diz respeito ao modo de se vestir, a maneira de falar - você pode falar olhando para os olhos, olhando para o chão, olhando para cima - quando você vai falar em televisão, você tem que olhar no olho do eleitor, olhar para o centro da televisão. A maneira de vestir: se você se veste com uma camisa esburacada, camisa suja, estará passando o conceito de desleixado. A pessoa deve se vestir de acordo com o ambiente, não deve se empetecar demais em ambiente rústico; isso provocará um choque. A maneira de falar, expressar-se com as mãos, com a boca, com a sobrancelha, com os olhos, quando está no palanque, causa efeitos mais ou menos impactantes. Discursando de maneira rígida, fria, sem gesticular, parecendo um boneco, o candidato não conseguirá embalar o eleitor. Os braços estimulam a aproximação, promovem um contato. É importante falar com naturalidade, demonstrando conhecimento dos problemas, apontando soluções, criando emoção, expressando sentimentos. As cores são importantes para a roupa. É aconselhável usar roupas que combinem com o visual dos materiais de propaganda. Quando for para a televisão, evitar camisas com riscos, que provocam reverberação, manchas. Deve-se usar cores de tom pastel e procurar símbolos e ícones que ajudem a identificar a campanha (o V da vitória, gesto de mãos apertando-se, gesto de braços acolhendo as pessoas). Essa é a parte do discurso estético. O discurso semântico vai conter as idéias, os atributos do candidato, os valores pessoais, os princípios políticos, os programas e compromissos. O discurso semântico inclui também as ações desenvolvidas ao longo da história do candidato, sua vida, o que já fez.
          O discurso político comporta ainda metáforas de guerra, simbolismos de guerra: “eu vou ganhar, eu vou lutar, nós vamos à vitória, vamos derrotar”, são termos da guerra na política. A psicologia mostra que essas metáforas estão relacionadas aos quatro grandes instintos do ser humano. O primeiro instinto é o instinto combativo, relacionado à sobrevivência do indivíduo. Nas cavernas, por exemplo, na pré-história, os nossos ancestrais, com aqueles imensos bastões, atacavam ou se defendiam dos inimigos que queriam ocupar seu lugar. Defendiam-se ou atacavam para não morrer. O segundo instinto, também ligado à preservação do indivíduo, é o instinto alimentar. Para sobreviver, a pessoa defende o estômago procurando o alimento para poder se preservar. Esses dois instintos estão presentes no discurso político: provoca sucesso o discurso voltado para o estômago do eleitor, ao bolso, à saúde - sem saúde ele não vive, com dinheiro no bolso ele vive melhor, ele come. São coisas fundamentais que o candidato não deve esquecer. O discurso para o eleitor tem de estar ligado fortemente ao instinto de sobrevivência do individuo, que cobre as questões de saúde, de alimentação, de habitação. Tudo aquilo que diz respeito à melhoria das condições de vida dos indivíduos. O terceiro instinto é o sexual, ligado à preservação da espécie. Daí o discurso sobre a família, os filhos, a relação homem-mulher. A idéia do carinho, de companhia, de solidariedade, de amor às pessoas é o eixo do instinto paternal, que é o quarto instinto. Esses valores se encontram presentes no discurso religioso; os padres, os pastores, trabalham muito com o instinto paternal. As pessoas querem ver no candidato um pai - “aquele candidato é um pai pra mim, ele tem autoridade, ele vai nos ajudar muito, ele vai me dar casa, ele vai me dar saúde, ele vai me dar condições de uma vida melhor, ele é um pai”.
          São fundamentos psicológicos. O discurso político se ampara nesses quatro grandes instintos, ligados à conservação do indivíduo e à preservação da espécie. É imprescindível ajustar o discurso ao clima da conjuntura, ao desemprego, por exemplo. Há que se ter muita afinidade com as forças religiosas, místicas; o eleitorado respeita e tem veneração pelo eixo místico. Candidatos de igrejas evangélicas costumam recitar salmos, do tipo: “Deus é o meu pastor e nada me faltará”, “se Deus está comigo, quem estará contra mim?”. Valores que o candidato há de respeitar: participação - a sociedade está querendo participar do processo político; cobrança - o eleitor quer fiscalizar a vida e as promessas; autonomia - a capacidade de um candidato de decidir sobre seus atos, seus fins, a capacidade de escolher os meios para atingir os fins; juventude - conciliar uma certa jovialidade com a experiência do adulto, não passar idéia de muito impetuoso nem muito velho; cidadania - é um conceito muito importante hoje. Cada vez mais o cidadão quer reforçar a sua cidadania. A cidadania se conquista com emprego, com saúde, com melhores condições de vida, com segurança, com liberdade, com conquistas dos direitos individuais e sociais. Repito: os valores estão presentes dentro do contexto sócio-político: participação, fiscalização, cobrança, mudanças no sentido de inovação, simplicidade, mais ação menos palavras, autonomia, juventude, experiência, cidadania.
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