Cenas da política brasileira

“Bebo por que é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia.”

Jânio apreciava a bebida. Bebia de tudo, mas nos últimos anos de vida, contentava-se em sorver garrafas de vinho do porto. Quando disputou o Governo do Estado contra Adhemar de Barros, na eleição de outubro de 1954, este contratou um repórter para pegar Jânio na pergunta capciosa: “por que o senhor bebe”? De pronto, Jânio deu o troco: “bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia”. O repórter, sem graça, saiu de fininho. Os despachos de Jânio constituem um capítulo à parte no folclore político que construiu. As historinhas são maravilhosas. De uma feita, respondendo a uma senhora que interferia em favor das sociedades protetoras dos animais, sugerindo criar um setor de defesa dos irracionais, o presidente respondeu: “minha amiga, seu apelo, em favor dos irracionais, encontra-se às voltas com terríveis problemas de amparo e proteção a outra raça tão digna, entre nós, de cuidado, a dos racionais.

Gaudêncio Torquato, in “Tratado de Comunicação Organizacional e Política”

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Contato de Aluízio Alves com Getúlio Vargas em 1950

Durante o governo de Getúlio, eleito em 1950, eu era redator-chefe da Tribuna da Imprensa e, um dia, em Natal, fui surpreendido com um artigo de Carlos Lacerda com graves e injustas acusações a uma obra de amparo à infância presidida por dona Darcy, que eu conhecia. Viajei imediatamente ao Rio, demonstrei ao Carlos os erros das informações que lhe haviam sido transmitidas e, com a participação de outros amigos seus, promoveu-se uma visita sua a dona Darcy, no Palácio do Catete, após a qual, com as devidas explicações, retificou o julgamento anterior do artigo.

Mas, na campanha de 1950, eu já fora ao encontro de Getúlio em Fortaleza. Apoiava o brigadeiro Eduardo Gomes, pela Segunda vez, e Getúlio era candidato a presidente, com apoio de um ex-professor meu, Edgar de Arruda. No Ceará, em audiência que me concedeu, convenci-o da injustiça da exclusão do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba do projeto de energia de Paulo Afonso.

Conhecendo minha posição política, que eu declinara ao apresentar-me, cobrou-me, depois, sorrindo, os votos. Leu, e me disse, brincando:

- Se eu me comprometer com esse seu projeto, por que não me paga em votos no Rio Grande do Norte?

- Sem querer – porque tenho outro candidato – já estou dando ao senhor muitos votos, nos três estados, quando o senhor  assumir o compromisso, perante as multidões que vai reunir.

- Acredito. Então, procure ouvir-me hoje aqui, e amanhã, em Natal.

Apoiou o projeto no discurso em Fortaleza, mas silenciou em Natal, creio que por influência política do local.

Cumpriu a promessa. Deve ter ganho, por isso, muitos votos.”

Aluízio Alves, in “O que eu não esqueci”

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Cinco horas de discurso

Lembramos um evento festivo, na cidade de Pau dos Ferros, Rio Grande do Norte, em meados de 86, por ocasião da campanha ao Governo do Estado. A festa era um misto de comício e inauguração da rádio da cidade. O povo foi convidado, desde as primeiras horas da manhã, a comparecer ao evento, onde estariam as principais lideranças políticas do Estado, a partir do governador e de seu candidato. A falação começou às 18 horas, com os vereadores. Os discursos terminaram por volta das 23 horas. A multidão, fatigada, depois de cinco horas de cantilena, já não tinha forças nem motivação para se animar com o show, a seguir, de dois dos maiores ídolos do Nordeste, na época: o sanfoneiro Luiz Gonzaga, o rei do baião, e o cantor-compositor Raimundo Fagner. As brincadeiras e gracejos do Gonzagão, no palco, eram recebidos em pleno silêncio. O povo não dançava, não ria, braços cruzados. O mesmo ocorreu com Fagner. Foi um desastre. Ouviu-se, logo depois, no hotel, a maior coleção de impropérios que um cearense já proclamara contra “políticos insensíveis que nos entregaram à multidão faminta e cansada.”

Gaudêncio Torquato, in “Tratado de Comunicação Organizacional e Política”

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“Sim, existe o jumento bêbado do Piauí”

O comício mais importante é o do encerramento da campanha. Deve ser bem planejado e receber uma multidão. Todo cuidado é pouco para não cansar o público. As falas devem ser curtas e, logo após o discurso do candidato, o espaço é o do show musical. A propósito, vale lembrar uma historinha ocorrida em 1986, em Teresina, Piauí.

O comício de encerramento da campanha de Freitas Neto (PFL) ao governo do Estado foi na Praça do Marquês. Desde as primeiras horas da manhã, os carros de som corriam a capital convidando a população para um grandioso show com Elba Ramalho. Para o show, deslocaram-se três imensas carretas, a partir do Rio de Janeiro. Depois de duas semanas e muitas dificuldades - ocasionadas pelas chuvas que estragaram as estradas - as carretas despejaram toneladas de equipamentos na famosa praça. Às 18 horas, praça já lotada, começou a cair uma chuva torrencial (toró, na expressão popular). Os técnicos correram para cobrir os equipamentos com capas pretas de plástico. Não houve jeito. A parafernália entrou em curto-circuito. Não se conseguiu arrumar o som. O público não arredava pé. “Elba, Elba, Elba”, gritava a multidão. A cantora recusava-se a cantar, estribada em contrato que a dispensava do show em caso de incidente/acidente. Depois de muita insistência, com o reforço da voz aflita do próprio candidato, Elba decidiu aparecer no imenso palco, desde que se arranjasse algum conjunto para acompanhá-la em pelo menos uma ou duas músicas. Arranjaram um músico que apareceu com um banjo. A multidão delirava. Quando a cantora começou a cantar a música “bate, bate, coração”, ao som de um desafinado banjo que ninguém ouvia, a chuva ainda caia intensamente. Chuva no Nordeste é festa na certa. O povão vibrava. De repente, Elba pára de cantar e começa a gritar: “parem, seus animais, parem seus imbecis. Isso não é coisa que se faça. Não vou mais cantar!... ”. No meio da multidão, a galera abria a boca de um jumento e despejava nela uma garrafa de cachaça. Foi o tiro de misericórdia no show que teria tudo para ser uma apoteose. Elba sai do palco vaiada. Urros de todos os lados. Uma tristeza. Um final de festa extravagante. O anti-clímax. Era um indício de que a campanha estava perdida. Se não por isso, mas o desfecho pode ter dado mais uns votinhos ao adversário. Por isso, quando alguém pergunta se há algum fator imponderável, imprevisível, no marketing político, respondo com a maior tranqüilidade: “Sim, existe, o jumento bêbado do Piauí.”

Gaudêncio Torquato, in “Tratado de Comunicação Organizacional e Política