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Gaudêncio
Torquato
Ao
puxar as orelhas dos empresários brasileiros, em seu périplo pela
Índia, pedindo-lhes que chorem menos e ousem mais, o presidente Luiz
Inácio reforça a sensação, que começa a inquietar os próprios
redutos petistas, de que ele não se conforma em deitar falação
contundente nos estreitos palanques brasileiros, numa crença de que
seu palco é o mundo e sua obra, uma extensão da graça divina. Para
um povo sentimental como o brasileiro, causa realmente orgulho ver
seu mandatário-mor acendendo velas e presenciando, na galeria de
honra, o desfile espetacular do poderio bélico e cultural de um país
como a Índia, ainda mais quando essa exibição conta com coisas tão
absolutamente fantásticas como soldados de turbantes multicoloridos,
camelos, elefantes e mísseis balísticos, algo parecido com esses
filmes que mostram máquinas do futuro no dorso de dinossauros.
Toca
ainda o nosso coração sentimental a voz rouca que quer dar uma
arrumada na banda errada da humanidade, indicando como a ONU deve
ser democratizada e a maneira como a nossa (infelizmente,
desvirtuada) CPMF pode ser adotada pelos países para eliminar a fome
do mapa mundial. Um homem de origem humilde, que passou fome e
venceu na vida com uma trajetória vibrante de lutas sociais,
mostrando os caminhos para a humanidade é uma história para ninguém
botar defeito. Essa é a interpretação boa das andanças do nosso cada
vez mais chefe de Estado pelos circuitos internacionais. (Aliás, o
papel de chefe de Estado não só foi reforçado com a nomeação do
ministro José Dirceu para comandar e integrar as ações do governo, o
que, na prática, o eleva à condição de primeiro-ministro, como
consagra o parlamentarismo às avessas no Brasil. Ou seja, o Poder
Executivo continua a legislar e a operar ao mesmo tempo. Agora, com
mais força. Basta verificarmos que o governo Lula, no primeiro ano,
editou mais medidas provisórias - 56 - que todos os seus
antecessores nos primeiros anos, com exceção de Collor, que baixou
76 MPs em 1990.)
O
lado ruim que se enxerga na liturgia lulista começa com a faceta
messiânica. O presidente é tão peremptório em suas lições sobre o
País, o povo e as instituições, principalmente nas falas
improvisadas, que até parece um enviado de Deus pregando do alto da
montanha da autoconfiança, no papel de um missionário onipotente.
Quando bate nos empresários, passa a impressão de que eles são uma
parte podre que se contrapõe ao Estado provedor do bem, àquele ente
que, na velha visão hegeliana, encarna a moral.
E
ele mesmo, Lula, no papel de defensor-mor dessa moral, não vai mais
admitir choro nem reclamação. Quer ousadia, agressividade, mais
exportações.
Nesse
momento, não aparece na cachola de improvisação do presidente o
motivo para tanto choro. Vamos ajudá-lo nessa tarefa. Convenhamos
que chorar à toa, só em teatro. Mesmo assim, há ator que convence
mais que empresário chorando. O choro começa com o empresário sem
forças para abrir a caixa-preta do Poder Executivo. Uma caixa que
guarda uma das maiores cargas tributárias do mundo. Somando os
impostos, taxas, contribuições, mais dispêndios com autoprestação de
serviços que deveriam ser pagos e supridos pelo Estado e as "cargas
legais" geradas por inadimplência, sonegação e corrupção, a carga
tributária deve estar, nos cálculos de especialistas, entre 62,5% e
67,5% do PIB. O choro aparece na coceira da burocracia: 152 dias
para abrir uma empresa, dez anos, em média, para se concluir um
processo e um mar de formulários, documentos, exigências, guias,
proscrições e prescrições para uma pessoa provar que é honesta.
O
choro aparece quando o cidadão se perde no cipoal do Judiciário.
Para começar, são 20 mil leis ordinárias e 200 leis complementares.
Dados do Sebrae. As demandas judiciais entopem os canais da Justiça.
A cada ano, cerca de 100 mil processos são distribuídos nos
tribunais superiores, onde cerca de 70% a 80% deles envolvem o
Estado, seja como autor, seja como réu. Há, no País, apenas um juiz
para cada grupo de 20 mil habitantes. O cidadão, numa execução
forçada, tem 24 horas para pagar ou indicar bens à penhora. O Estado
tem 18 meses a partir da expedição do precatório. No Supremo
Tribunal Federal (STF) há cerca de 3 mil processos versando sobre a
intervenção em Estados pelo descumprimento de decisões judiciais. Há
casos que se arrastam há 30 anos. A confusão legislativa é tão
grande que o STF já analisou quase 3 mil declarações de
inconstitucionalidade, mais que as cortes do mundo inteiro, de
acordo com o ministro Moreira Alves.
O
choro vem quando o empresariado se defronta com leis, como a da
Cofins, também conhecida como a Lei da Confusão: até o momento, a
Receita não conseguiu esclarecer a correta aplicação dos complicados
mecanismos de compensação ali estabelecidos. Os setores produtivos -
não apenas o setor de serviços - estão chorando aos píncaros, sob as
gargalhadas de Palocci e da equipe responsável pela sanha
burocrática e pelo furor arrecadatório. O presidente, convenhamos,
também é chegado a um chorinho. Quem sabe ele não verterá lágrimas
de solidariedade, passando, ainda, a exigir de seu primeiro-ministro
José Dirceu condições para o empresariado voltar a sorrir, aí
incluindo a diminuição dos juros para o patamar de um dígito? Por
último, a lição do ditado: choro de agonizante ainda é melhor que
vela de defunto.
Publicado
no O Estado de S.Paulo - 01/02/2004.
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