PORANDUBAS Nº526

Abro a coluna com uma historinha do Saci-Pererê

Fraco, mas cheiroso

Nos sertões do Nordeste, caçadores e lenhadores costumam pôr na frincha de uma árvore da mata em que se encontram certa porção de fumo para Santa Clara. A santa, em recompensa, faz com que naquele dia a chuva não lhes estorve o trabalho. Em São Paulo há uma superstição semelhante: – quem sai a caçar, em dia de sexta-feira, tem a obrigação de levar um pedaço de fumo para o Saci-Pererê. De um caipira mentiroso, fértil no relato de inverossímeis proezas venatórias, repete-se que o mesmo contava:

– Uma sexta-feira, eu me esqueci de levar o fumo. Estava pensando nisso, quando o Saci apareceu e me exigiu o tal tributo que lhe era devido. Fiquei atrapalhado, mas resolvi ver se enganava o Saci e o matava.

Disse a ele:

– “Fumo, mesmo, fumo eu não truxe não, mas truxe o cachimbo carregado.”

Aí, meti-lhe o cano da espingarda na boca e puxei o gatilho. Quando o tiro falou e eu esperava ver o Saci esperneando e morrendo, ele mexeu com as bochechas, como se estivesse enxaguando a boca com os caroços de chumbo e, cuspindo a carga da espingarda, me disse:

– O fuminho é fraco, mas é até cheiroso…

(Quem conta é Leonardo Mota em Sertão Alegre)

Ainda os abalos

O impacto da Lista Fachin continua abrindo e fechando as interlocuções. A impressão é a mesma: nunca d’antes na história desse país, como diria Lula, a corrupção foi tão escancarada. O Estado foi abocanhado, fatiado, assaltado, negociado. É certo que a corrupção não é coisa da atualidade. Vem de longe, como lembra o patriarca Emílio Odebrecht, que confessa manter negócios escusos com os governos e políticos desde os idos de 1970.

Naturalidade

O que mais impressiona nos vídeos que mostram as negociatas é a naturalidade dos depoimentos. A corrupção era tratada como coisa banal, algo generalizado. Só que o tamanho da grana causa perplexidade: quase R$ 4 bilhões de 2006 até 2016. Milhões para um, milhões para outro, envio de propina em sacolas, depósitos em contas no exterior e, pasmem, até uma conta de R$ 40 milhões para uso do ex-presidente Lula, de onde o ex-ministro Antonio Palocci costumava sacar grandes nacos.

Cada caso é um caso

A lista é longa e será investigada, caso a caso. Dos 98 sob a esfera do STF, 67 são acusados de cometer crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Os 31 restantes são acusados de crimes de falsidade ideológica eleitoral, o tal do caixa 2, que teriam penas menores. Essa turma confia na tradição. De 2011 até 2016, nenhum político foi condenado por esse crime, o que levou os casos até então existentes à prescrição. Outros 200 casos foram encaminhados a outros foros e instâncias por ausência de foro privilegiado.

Prescrição

Lembrete: o crime de corrupção prescreve depois de 20 anos para quem é funcionário público e em 16 anos para outros tipos de réus; a lavagem de dinheiro prescreve após 10 anos; e o de caixa 2, em 12 anos. A OAB está sugerindo que o STF conte com uma força-tarefa (juízes auxiliares) – como aconteceu por ocasião do mensalão – para dar conta do recado. O STF julga mais de 100 mil casos por ano. Só o ministro Fachin acumula em seu gabinete 4.206 processos.

Cobertura da TV Globo

A cobertura da Lava Jato causa mais impacto com a cobertura da mídia eletrônica. O fato de o Jornal Nacional, da TV Globo, ter apresentado uma série de matérias durante toda a semana passada, com depoimentos dos delatores, ampliou a teia negativa que cobre a esfera política. Os políticos implicados foram todos moídos por um imenso rolo compressor da mais forte televisão brasileira. Não adiantou protesto de um ou outro denunciado por meio de notas em defesa. Todos saíram chamuscados.

Nivelamento

A esfera política tem reagido com indignação à cobertura midiática. Os políticos acusam o nivelamento dos casos. Não tem havido explicações que atenuem os casos do caixa 2 e os casos de propina, o dinheiro recebido e gasto em campanha e o dinheiro recebido e embolsado. O Ministério Público, por sua vez, age para colocar todos os protagonistas no mesmo círculo do inferno.

Banalização

O bombardeio diário das denúncias, ancorado em depoimento de delatores, acaba banalizando as mensagens. E os efeitos seguem para o mesmo compartimento: “todos os políticos são iguais; a política é uma roubalheira; os políticos não me representam; não vou votar mais naquele salafrário; até fulano está nessa lista?”. Essas são as afirmações mais comuns que se extraem do processo de banalização.

Até tu, fulano?

O PT deve ter observado que a operação Lava Jato não faz parte de um jogo combinado para “pegar Lula”. Todos os grandes e médios partidos estão dentro. Os partidos de esquerda, entre eles o PC do B, também passaram a frequentar as listas. Daí o desânimo de certos grupos – e alguns intelectuais – que tinham afinidade com os blocos da esquerda. Esse desânimo se observa até no refluxo dos movimentos de ruas. Afinal, quem sobrou como herói da galera ideológica?

Protagonistas de 2018

Quem sobrará na trilha de 2018? O bombardeio sobre Aécio Neves o deixa no recôndito das feridas. Será difícil suportar os efeitos. José Serra, também baleado, ainda tem de enfrentar as dores da coluna. O governador Alckmin foi também citado, mas deverá escapar das bombas. Tem lastro para ser o candidato tucano. Lula está, a cada dia, mais perto da condição de condenado. Bolsonaro é um sinal na extremidade direita. Sem condição de avançar no espaço central. E Ciro Gomes, hein? Esse será retirado de cena pela metralhadora que guarda na boca. Marina Silva também foi citada, mas pode entrar na trilha com sua imagem de santa amazônica. Mas é frágil. Doria? Fica na sala de espera do desenlace. Ronaldo Caiado? Tem limites estreitos. ACM Neto? Figurante com pose de vice.

Plebiscito e Constituinte

Modesto Carvalhosa, José Carlos Dias e Flávio Bierrenbach são três juristas de alto gabarito, que merecem respeito e crédito. Ante o estado de descalabro a que chegou o país, os três, em artigo nos jornais semana passada propuseram a realização de um plebiscito para que o povo decida, soberanamente, se quer uma Assembleia Constituinte originária e independente, que teria como foco a formação de “novas estruturas para o desenvolvimento sustentável do nosso país, num autêntico Estado Democrático de Direito”. A ideia é saudável e vem no momento adequado. O problema: deixaria o país totalmente paralisado. O conjunto de reformas em andamento iria para o beleléu.

A ideia

A Constituinte seria formada por pessoas sem cargos políticos, ou, até, por uma Assembleia Constituinte formada pelos próprios congressistas. “Esta será a única pergunta a ser formulada na cédula”, dizem em seu artigo.

Consumidor e convergência digital

Dados divulgados recentemente mostram que os brasileiros estão cada vez mais consumindo entretenimento em plataformas diversas. Em 2016, de acordo com dados da Visa Performance Solutions, uma das atividades que mais cresceu no ambiente digital no Brasil foi a de compra de mídia via streaming em serviços como Spotify e Netflix. Fica claro que para um público cada vez mais conectado, não faz sentido nenhum restringir o acesso a músicas, filmes, séries e outros produtos de entretenimento a formatos adotados tradicionalmente, baseados em emissoras e grades de programação rígidas. Isso é coisa do passado. O que se exige agora é o poder de escolher onde, quando e qual o formato mais adequado para atender às necessidades de cada indivíduo.

Fórum de Foz

O Grupo de Líderes Empresariais – LIDE – promoverá, a partir de amanhã, em Foz de Iguaçu, seu 16º Fórum, o maior evento na área empresarial do país. Criado por João Doria e famoso por reunir anualmente, em abril, o maior núcleo de políticos, governantes e empresários brasileiros, o LIDE é comandado hoje pelo ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, empresário Luiz Fernando Furlan. O tema central será: “Ações necessárias para a retomada do crescimento brasileiro”.

Previdência

A cada dia, cresce a expectativa de aprovação da reforma da Previdência. O presidente Michel Temer tem feito extraordinário esforço para mobilizar sua base no Congresso. As resistências diminuem. O mote de que a reforma vai “acabar com os direitos dos trabalhadores” cai no descrédito. E dá lugar ao conceito de que a reforma previdenciária é necessária para garantir a aposentadoria nos tempos de amanhã. O governo, por seu lado, cedeu em alguns pontos, como na regra de transição, que se tornou mais flexível.

Trabalhista

A reforma trabalhista está sendo considerada um grande passo para a atualização da obsoleta CLT. As medidas esperadas pelo substitutivo ao PL 6.787/16, cujo relator é o preparado deputado Rogério Marinho (PSDB-RN), terão reflexo nas seguintes frentes: redução da insegurança jurídica dos empregadores; aumento da produtividade no trabalho; aumento da geração de empregos e oportunidades de trabalho; redução da informalidade e do desemprego; maior oferta de benefícios aos trabalhadores; redução da litigiosidade nas relações de trabalho e maior celeridade nos processos trabalhistas e fortalecimento das redes de produção e aumento de investimentos. Este é um resumo dos impactos, na visão do consultor Emerson Casali.

João Doria vai ao Papa

Esse prefeito de São Paulo sabe mesmo onde banhar sua imagem. Depois de 100 dias eletrizantes, João vai ao encontro de outros mundos. Foi a Dubai convencer grandes fundos de investimento do petróleo a investir em São Paulo. Mercador ambulante, foi a Seul, na Coreia do Sul, atrair investidores e mostrar São Paulo como porta aberta aos investimentos. E nem bem chega de longa viagem – 28 horas dentro de um avião na volta – vai a Roma pedir a benção ao papa Francisco. Terá audiência com Sua Santidade. João sabe que a benção papal é um grande passaporte para abrir as portas do céu.

Gengis Khan

Certa ocasião, Gengis Khan foi interrogado por um dos seus companheiros mais antigos e fiéis: “Você é o soberano e é chamado de herói. Quais são as marcas de conquistas e de vitórias que você leva em sua mão?”. Gengis Khan lhe respondeu: “Antes de subir ao trono do império, certa vez eu cavalgava por um caminho. Lá encontrei seis homens que se tinham colocado em emboscada junto à cabeça de uma ponte e queriam acabar com a minha vida. Quando me aproximei, puxei minha espada e os ataquei. Eles me inundaram com uma chuva de flechas, mas todas elas erraram o alvo e nenhuma me tocou. Matei todos eles com minha espada e continuei cavalgando sem ter sido ferido. No caminho de regresso, passei junto ao local onde tinha enfrentado aqueles seis homens. Seus seis cavalos vagavam por ali sem dono e eu os levei todos para minha casa”. Elias Canetti, em seu clássico Massa e Poder, arremata: Nesta invulnerabilidade numa luta contra seis inimigos de uma só vez, Gengis Khan via a prova mais certa de todas as suas conquistas e de suas vitórias.

Lula

Pois bem, quem vê Lula se mexer de um lado para outro, preparar as armas para grandes embates nos próximos tempos, acaba chegando à conclusão: Luis Inácio sonha ser Gengis Khan.

Fecho a coluna com a sabedoria do Padre Manuel Bernardes

O coice do jumento

Sócrates caminhava tranquilo quando um atrevido descomedido deu-lhe um coice. Estranharam alguns a paciência do filósofo, que arguiu:

– Pois eu que lhe hei de fazer, depois de dado o coice?

Responderam:

– Demandá-lo em juízo pela injúria.

Replicou:

– Se ele em dar coices confessa ser jumento, quereis que leve um jumento a juízo? (Padre Manuel Bernardes)