A travessia brasileira (Por mares nunca d’antes navegados)

PROFESSOR GAUDÊNCIO TORQUATO

As manifestações que ocorrem no país são diferentes dos eventos ocorridos em décadas passadas, quando se identificavam eixos e discursos centrais (Diretas Já, impeachment de Collor), lideranças fortes e intensa participação da esfera política)

I parte – Descrição

1. A canoa atravessando o rio

– Uma pequena canoa, manobrada por um pequeno grupo, bota a canoa no rio, para atravessá-lo de um lado para outro. O nome da canoa: MPL – Movimento pelo Passe Livre. Composição dos canoeiros: estudantes. A intenção desejada: reduzir a tarifa de ônibus em SP. A canoa começou a abarrotar de gente. Todos queriam entrar na canoa e chegar à margem oposta.

2. A canoa se transforma em um navio

– O Movimento pelo Passe Livre, de maneira surpreendente e rápida, assume enorme proporção. A primeira movimentação junta, em torno do grupamento inicial de estudantes, setores variados: ativistas de movimentos em defesa de gêneros, de minorias étnicas e sexuais, funcionários públicos, pais de estudantes, comerciários, punks e anarquistas.

– A reivindicação básica – redução da tarifa de ônibus – dilui-se na massa discursiva que se ouve e se vê nas palavras de ordem e faixas levantadas pela multidão em passeata:

– contra a corrupção
                   – contra a violência
                   – contra os serviços precários de saúde
                   – contra a deteriorada malha educacional

– (ao lado de outras bandeiras – como maioridade penal, contra a criminalização do aborto, contra a PEC 37 etc);
– altos custos dos estádios/dificuldade de acesso

3. O transatlântico invade os mares

– A travessia se transforma, de repente, em gigantesca navegação em uma frota de transatlânticos que abrigam milhares de pessoas em mais de 100 capitais e cidades do país. Calcula-se que 1 (hum) milhão de pessoas participaram da última manifestação, ocorrida semana passada.

– A movimentação apresentou algumas características:
– violência da PM no primeiro grande movimento, segunda feira, dia 17; cenas de vandalismo e depredação de prédios públicos; destruição de carros de empresas jornalísticas.
– uma vitima de atropelamento (interior de SP) e centenas de feridos em muitas capitais e cidades
– distanciamento dos grandes partidos políticos. Mesmo os pequenos partidos (de extrema esquerda) foram repelidos pela multidão.
– um discurso difuso – propostas genéricas no entorno da proposta central do MPL: redução de tarifas de ônibus.

4. A surpresa nas esferas política e governamental

– A falsa impressão de que o conforto econômico – mesmo sob ameaça de volta da inflação – apaziguava o país.

– a falsa impressão de que os jovens, descrentes da política, formam grupamentos amorfos, desinteressados e sem motivação para acorrer às ruas.

– a surpresa pela rapidez da formação dos contingentes; pouco se tinha ideia das condições de interatividade e mobilização propiciadas pelas redes eletrônicas da internet;

– a reação de inação da área política – O que dizer? O que fazer? Como fazer?

II parte – Reflexão

  1. A ocupação das ruas de grandes e médios centros urbanos por multidões é algo inusitado na feição institucional. Por ocasião das Diretas Já e do Impeachment de Collor, as motivações eram claras e grandes lideranças puxavam as mobilizações.
  2. Depois do surto Collor, reaparecem, hoje, as massas na rua. O fato deve merecer ampla reflexão por emergir como contraponto ao cenário de harmonia que se imaginava, até então. Reflete o fechamento de um ciclo de aceitação/passividade e sinaliza a abertura de um tempo de participação da sociedade, como um todo, no processo decisório.
  3. Sob certo aspecto, podemos falar da emergência de traços da democracia direta em contraposição à democracia representativa, em crise.
  4. O povo percebe que tem a força para fazer mudar as coisas. A redução do preço das passagens de ônibus é o atestado mais evidente dessa capacidade. E essa percepção funciona como fator de animação/disposição/ animus animandi.
  5. As razões. Qual o fator causal dessa ampla movimentação? Não há um, mas um conjunto de fatores. Podemos inseri-los dentro do que designo de Produto Nacional Bruto da Insatisfação Social (PNBIS), composto por mazelas nas seguintes áreas:
    1. Corrupção generalizada
    2. Educação deteriorada
    3. Saúde em estado precário – estruturas inadequadas, ineficientes, obsoletas
    4. Violência em expansão das médias e grandes cidades
    5. Sistema de mobilidade urbana locupletado
    6. Gastos excessivos em estádios de futebol

Essas áreas compõem a massa de negatividade / insatisfação / indignação que chega, rotineiramente, ao sistema cognitivo do cidadão comum.

Para agravar o quadro, os avanços alcançados pela sociedade e a esperança de que o país abra novos capítulos sofrem reveses. (Veja-se, a propósito, a declaração do ministro Dias Toffoli, de que o mensalão poderia durar, ainda, dois anos. Um balde d’água fria na cabeça dos esperançosos brasileiros, que distinguiam o final do maior processo criminal julgado pela mais alta Corte do país).

– Além disso, os estádios desta Copa das Confederações aquecem fogueiras. Ouçam-se as a Dilma e ao Joseph Blater no Mané Garrincha, em Brasília, enquanto o MPL já estava nas ruas.

– Indignação que continuou depois, com pancadaria feia entre polícia e manifestantes à frente dos estádios de Fortaleza e de Brasília. A revolta contra a exuberância dos palácios futebolísticos pode ter contribuído para a indignação, sob o pano de fundo do contraste com a miséria, falta de saúde, educação, moradia, segurança pública, etc.

  1. O rastro de pólvora

A mobilização social conta com um formidável aparato comunicativo: as redes sociais. Que funcionam como o rastro de pólvora. Os participantes comunicam-se entre si, as palavras de ordem são disparadas e os comandos (quase anônimos) vão somando milhares de seguidores e militantes das causas patrocinadas.

  1. A mobilidade dos grupamentos é algo surpreendente, a denotar a existência de um novo ator no desenho da movimentação das massas: a internet.
  2. A ausência de fortes lideranças

Chama a atenção a ausência de lideranças tradicionais ou mesmo novas, que tenham visibilidade ou marquem presença na galeria dos comandantes de grandes operações de massa. Essa é outra característica da movimentação social.

  1. Difusão do discurso

a)    Os discursos nem sempre são claros, mostrando que a vontade do manifestante de abrir a locução ou ir à rua é o que interessa. Essa situação tende a ser mais visível nas próximas etapas das movimentações, quando novas propostas serão encaminhadas e verbalizadas. O MPL já anunciou que se retira, por enquanto, do palco paulistano, por enxergar oportunismo por parte de parcelas e grupos políticos.

b)    Sejam quais forem os patrocinadores/mobilizadores, uma séria questão se imporá a eles: clarificar metas, objetivos e propostas para que as vozes não caiam no vazio. Na polifonia da Torre de Babel.

  1. Políticos, fora?

– Os políticos não são bem vistos nas movimentações, como se viu nas ações de queima e rasgo de bandeiras partidárias. Mas em algum momento, a área política haverá de se fazer presente porque as coisas passam necessariamente pelos governantes do Executivo e pelos parlamentares do Poder Legislativo. A própria presidente Dilma tem tomado cuidado para evitar um discurso que seja mal recebido e interpretado.

  1. A composição

– Por enquanto, a composição dos contingentes nas ruas mostra os seguintes setores: estudantes, participantes de movimentos em defesa de minorias e igualdade de gêneros, pais de estudantes, funcionários públicos, punks, comerciários, anarquistas, desempregados, profissionais liberais. Estão fora desse circuito as categorias profissionais de trabalhadores, principalmente os setores abrigados nas Centrais Sindicais.

  1. Próximos passos

a)    Para onde rumarão os manifestantes? Quais as bandeiras a serem erguidas nos próximos movimentos? Ligeiro cenário:

– melhoria da qualidade dos serviços públicos

– problemas relacionados às localidades – Pedra jogada no meio da lagoa tende a chegar às margens- questões de zonas e regiões da capital e regiões do Estado.

– Nos Estados e outras capitais, a tendência será a mesma. Dar vazão às demandas específicas de cada comunidade.

– A área política deverá entrar no circuito. As oposições vão buscar motivos para endurecer as críticas.

– O governo Dilma, por sua vez, se esforçará para arrumar um “Bolsa-Cabeça”, alguns programas voltados para agradar aos jovens. Em contraposição ao Bolsa-Família, destinado ao estômago.